Prosa - A Verdade (PortugalGay.pt)
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Jun 2001

Quantas vezes caminhei por entre os corredores da escola, esperançosa, necessitando de encontrá-la ao virar de mais uma esquina, de mais uma cara, e sorrir para ela, assegurá-la que pode sempre sorrir para mim, que pode sempre contar comigo.

Afastei-me novamente, acompanhada por pessoas habituais.

E nos minutos intermédios às aulas onde a multidão se junta, juntei-me eu aos meus. Olhei para o meu lado direito, não estava, olhei para o meu lado esquerdo e vi-a com os seus. Desejava ter poderes para fazer com que todos desaparecessem, e ficar só eu e ela. Bastava trazê-la até mim. Eliminar a distância. Eliminar a impaciência, a inércia de estar ali sem nada me prender. "Vem até mim", desejei dentro do meu mundo interior, inacessível aos olhares alheios. Olhei mais uma vez e lá vinha ela. Será que passaria aqui por perto? Será que vinha ter comigo? Esperei, ansiosa pela sua chegada ou passada.

Parou junto de mim e sorriu. "Olá.", disse emanando uma ternura violenta dos seus olhos. "Olá", respondi. Comprimentei os que a acompanhavam. Não tinham qualquer importancia, são figurantes. Ela ilumina tudo à sua volta, ou serão os meus olhos que iludidos me enganam? E a nossa curta conversa, é preenchida por inocentes toques, cuidado especial, olhares inibidores. Porque é que tenho tanta importancia para ela? Porque é que me destaca dos outros? Porque é que nunca me censura, quando eu mesmo o faço, quando todos os outros o fazem? Porque é que eu vejo nos seus olhos, o que mais ninguém vê, e que ela própria parece desconhecer que sente? Parece que são constantes gritos, um chamado inconsciente por mim. Para me aproximar, para assegurá-la que continuo aqui depois destes anos todos.

Rendida, fraca, dela.

E um sinal avisa-nos que temos que recolher ao velho edíficio onde nos esperam mais 50 minutos de turtura, de distancia. Coloca a sua mão no meu braço, eu tremo e tenho a certeza, ali, com ela, que deveríamos permanecer sempre juntas. Guia-me pela multidão, ignora os que nos acompanham, e faz de mim o seu sol. Sorri, olha-me, acaricia-me, engana-me.

Relembro todas as mentiras que lhe disse, todos os amores que inventei, para tentar retirar-lhe o poder que tem sobre os meus sentidos, sobre a minha mente, sobre o meu corpo, sobre os meus sonhos. E todas as histórias que ela me conta sobre os seus amores... mata assim a esperança em mim de eu possuir esse mesmo poder sobre ela. Entristeço. Recolho-me na minha frustação, na minha sina, no meu karma. Ela apercebe-se do meu negativismo, e rodeia-me tentando obter de mim as palavras proíbidas, as palavras que nunca lhe direi.

A verdade.

Guida
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