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Sábado, 17 Março 2007 12:33

LIVROS
"Quando escrevo posso falar de tudo, da minha sexualidade, não tenho medo"



Entrevista a Robert Dessaix, escritor australiano


Numa manhã de sábado, um rapaz de 11 anos tira da prateleira de uma livraria um dicionário de russo. O rapaz era Robert Dessaix e esse gesto mudou-lhe a vida para sempre. Este o ponto de partida de uma narrativa difícil de classificar, assinada por aquele que é um dos mais reconhecidos escritores australianos da actualidade. Em O Crepúsculo do Amor, Dessaix reconstitui a relação entre Turgueniev e a cantora lírica Pauline Viardot. São as várias possibilidades do amor, numa conversa com um homem de percurso singular que, após saber que era seropositivo, sacrificou a busca do sentido da vida à decisão de viver uma bela vida.

Neste livro tenta encontrar os significados da palavra "amor" a partir da relação entre Turgueniev e Pauline Viardot...

É uma palavra tão aborrecida em inglês... Em todas as canções ouvimos I love you, I love you... e o significado é nenhum. Amo o meu cão, o meu parceiro, música, bananas, papa de aveia. Tento encontrar a palavra certa porque enquanto não a tiver não entendo os meus sentimentos. A palavra certa para tudo. É a minha única arma. Sou pequeno, não sou forte, não posso lutar, excepto com palavras.

E procura-lhe todos os significados...

Sim. E provavelmente não uso a palavra amor. Pode-se ter admiração, respeito, afecto, adorar, ter paixão, estar encantado, seduzido, apaixonado por... Neste momento, além da minha relação oficial, tenho um relacionamento com um jovem. Não é uma relação sexual, mas não sei o que é. Ele vem agora para a Tunísia comigo. Tem 21 anos. Estou todo o tempo a pensar qual será a palavra certa para esta relação. Amor não é e eu não estou apaixonado. Estarei embeiçado, enfeitiçado? Não sei. Qual será a palavra? Se encontrar a palavra errada actuarei de forma errada... (pausa) Posso fumar um cigarro? É o meu único vício. Sou completamente virginal.

Este é um ensaio sobre o amor?

É. Quando se lê sobre o amor de Turgueniev por Pauline Viardot toda a gente pergunta se ele dormiu com ela. Que aborrecimento! Pensam de forma cliché. Não é essa a questão. A questão é que espécie de amor era aquele que o fez ficar obcecado durante 40 anos. Será amor? Amar alguém durante 40 anos sem contacto sexual... É extraordinário. E eu tenho um amor extraordinário pelo meu companheiro, que também não é sexual... No início foi, mas 20 anos depois é impossível que seja. Ele é para mim uma hiperpresença. Tenho de saber o que significa. Quero experimentar muitos tipos de amor. É que se encontrar a palavra errada posso agir de maneira errada. Se disser "tenho ciúmes de ti" e for errado posso começar a agir como um ciumento num romance de Flaubert e será um desastre. Aqui, no meu quarto de hotel, ou no Porto, todos os dias tento escrever sobre o que sinto por este jovem. Se vou passar com ele duas semanas tenho de encontrar as palavras correctas para nomear. Ele só tem 21 anos. Não tem vocabulário.

O livro começa com um rapaz que descobre um dicionário de russo e isso muda-lhe a vida. Aconteceu-lhe...

O começo é factual.

Acredita na ideia de que um livro pode mudar uma vida?

Mudou a minha. Eu podia ter tirado um dicionário de português, mas naquela manhã peguei num dicionário russo. Adoro esses momentos. São cruzamentos. Por nenhuma razão, viramos à esquerda e tudo muda. Os bons livros abrem portas. Livros como Anna Karenina, mas particularmente Tchékov. Quando era novo não entendia Tchékov. Achava aborrecido. As pessoas de que ele falava eram aborrecidas e não acontecia nada. Mas à medida que envelhecemos começamos a perceber que a vida é assim. Nada acontece e a maioria das pessoas é aborrecida. Tchékov começou a significar muito para mim. A Bíblia é o exemplo óbvio. Ler a Bíblia, acredite-se ou não em Deus, muda a vida. Não se pode ler o Novo Testamento e ficar na mesma.

Porquê?

Porque fala das grandes questões de que ninguém à minha volta fala. Fala de morte e fala de bondade. E da natureza da bondade e de responsabilidade. Usa termos e juízos fora de moda, mas traduzo isso em palavras actuais. Não uso a palavra Deus, mas posso usar palavras como 'verdade infinita'. Obriga-me a pensar nas únicas coisas que interessam.

E partilha-as nos seus livros...

Nos livros não me sinto embaraçado. Não a vejo, a si, como leitora.

Sou uma pessoa sem rosto.

Sim. Posso ser mais cândido, mais honesto, mais vulnerável. Quando escrevo posso falar de tudo, dos meus sentimentos, da minha sexualidade. Não me sinto embaraçado.

Não há tabus na sua escrita?

Não há tabus. Acho que é por não ter família. Não tenho família, portanto não tenho orgulho. O orgulho baseia-se na família. Vem da vontade de querer parecer bom, virtuoso. Não tenho pais, nem irmãos, nem filhos... Não tenho orgulho. Não posso contar tudo porque não tenho tempo.

Mas tem liberdade.

Muita liberdade. Há é um preço.

Qual?

Não ter segurança. É difícil ter um ninho. Vivo com o meu companheiro há 25 anos. Depois deste tempo temos um ninho, uma casa, um jardim, um cão. Mas não é bem a mesma coisa que ter uma família heterossexual, com filhos, em que todos te admiram.

Sente falta desse tipo de família?

Não racionalmente, mas fica-se cansado. Na Austrália, a homossexualidade não é problema; é legal; é crime discriminar, blá, blá, blá... Mas na realidade tenho de me estar sempre a justificar, a dizer 'sou normal'. Não molesto crianças, vou ao supermercado, tenho amigos... O meu vizinho não tem de se justificar porque é heterossexual. É "normal".

Mais ainda quando é um homossexual com HIV.

Sim, é preciso explicar que isso não significa que se é má pessoa. Está--se infectado.

Mas sente-se assim?

Acho que sim. Há julgamento moral. Toda a gente diz que é um acidente, acontece, mas é como sífilis. Assim que alguém me disse que Schubert teve sífilis, mudou a minha atitude para com ele. É natural. É uma doença que altera a atitude. Olham para mim e tenho sífilis.

(por Isabel Lucas)

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