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Traída

por portugalgay sábado, 30 Agosto 2008 01:25

Depois de ler todos estes testemunhos, e de correr o risco de ser injusta com alguns deles, gostaria de mostrar o reverso da medalha. Fui casada durante 7 anos com um indivíduo que sempre me traiu (sei isso hoje), com todo o tipo de mulheres inclusive prostitutas de rua (a minha crítica não vai para as prostitutas, só as frequenta quem quer). Uma vez, dado o elevado número de infecções que contraía o meu médico disse que, o então meu marido, deveria fazer análises. O resultado foi sífilis. Depois de muita angústia, de uma decepção do tamanho do mundo, o casamento lá continuou, com promessas de fidelidade, com desconfianças... Passados 4 ou 5 anos o tempo tinha atenuado a dor da traição irresponsável. Já com 2 filhos, empregos estáveis, rendimentos razoáveis, nada fazia prever que ele voltasse ao mesmo tipo de comportamento. A minha desconfiança voltou, alertei-o várias vezes para o facto, nada fez mudar o seu comportamento. Uma tarde recebo um telefonema do laboratório a dizer que as análises do então meu marido tinham ido para Lisboa (confesso que embora soubesse que alguns laboratórios utilizam este método para nos alertar, não liguei, quando chegou do trabalho dei-lhe o recado). Passada uma semana, ele foi ao médico, eu fiquei à espera dele para irmos para a praia com as crianças. A demora foi grande, quando entrou em casa, disse-me que o médico queria falar comigo. A minha pergunta foi: estás infectado com HIV. Respondeu: não sei, não tenho a certeza. Pedi-lhe as análises, mas tinha retirado as referentes ao HIV. Tudo se desmoronou à minha volta. Disse-me que ia precisar muito da minha ajuda. Não respondi, tinha os meus filhos comigo. No dia seguinte, levei as crianças para o infantário e fui falar com o médico que confirmou as minhas suspeitas. Chorei, fui fazer análises, fui a casa falar com ele. Disse-lhe que não lhe perdoava tamanha traição, irresponsabilidade e mentiras que tinham construído um casamento de fachada. Pedi o divórcio. Chamou-me má, que eu não me lembrava que tinha filhos, que eu sabia que ele não gostava de usar preservativos e que o divórcio iria ser contencioso. Disse-lhe para fazer como quisesse, mas comigo já não vivia mais. Os meus avisos foram muitos, senti-me a jogar a roleta russa durante todo o casamento. Perguntei-lhe se ele tinha pensado nos filhos, se tinha pensado em mim quando teve relações comigo sabendo que estava infectado. Resposta: isso não interessa. Não interessa a quem? A mim ou a ele? Como é normal, nestes casos, fomos juntos à primeira consulta. Quando entrei, a médica disse-me “vocês parecem ser pessoas de bem e bem formadas”, chorei, contei todas as minhas desconfianças, inclusive que ele teria comportamentos homossexuais. A médica disse-me que quando passar esta sua dor “ajude-o que ele vai precisar, mas faça o que está a pensar, divorcie-se ele não vai mudar, não queira saber o passado dele, vamos esperar que não esteja infectada”. Quis Deus que a sorte me batesse à porta. Depois de um ano a fazer análises durmo hoje descansada. Mas o meu drama continua: como vão reagir os filhos quando souberem? Porque é que não aprendeu nada com a lição que a vida lhe deu, e presta pouca atenção aos filhos? Porque diz que não vai perder dinheiro de juros para operar a filha que tem 6 anos? Não me arrependo nem um pouco de me ter separado dele. Foi sempre um mentiroso e irresponsável. Nunca afastei os meus filhos da sua convivência, deixo-o entrar em minha casa porque os filhos gostam dele. Quando andou psicologicamente em baixo fui eu que telefonei para o hospital e falei com o médico para lhe ser dado apoio psicológico, não porque tivesse remorsos mas porque é um ser humano, e pai dos meus filhos. Com toda esta história apanhei uma depressão que ainda não consegui largar, sou mãe e pai ao mesmo tempo, pago as minhas consultas e os meus medicamentos. Muitos irão ficar chocados com o que vou dizer: porque tem ele medicamentos gratuitos e outros como ele se sabem perfeitamente os riscos que andam a correr? E os outros que ficaram infectados sem terem contribuído para tal? É isto ético? Não sei responder. Sei que passados 5 anos e apesar de várias oportunidades não consigo relacionar-me sexualmente, tal é o pânico e o nojo com que fiquei do pai dos meus filhos. Sei que nem todos os homens são iguais, mas o medo fala mais alto. Já não me sinto infeliz, tenho amigos com quem saio, faço uma vida normal. A ele não o odeio, mas não consigo nutrir qualquer tipo de sentimento. Quero que seja feliz, mas a felicidade dele não passa por mim. Só para terminar, gostaria de dizer que ele é um "felizardo": toda a família o apoia (5 irmãos), mas toda a família continua a fazer todas as vontades ao menino (ele é o mais novo). A todos os que estão infectados devido à irresponsabilidade dos outros muita coragem, a vossa vida pelo que leio pode ser normal e longa, aos outros que tenham igualmente coragem mas aprendam com a lição que a vida vos deu, sejam honestos e não propaguem o vírus. Este é um desabafo de quem tem uma perspectiva diferente. Também não é fácil estar do outro lado do problema.
anónima

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