A Minha História é, penso eu, uma história muito comum. O facto é que conheço algumas pessoas que passaram pelo mesmo caminho e estão por aí, tocando a vida. Saí de casa ainda criança, não suportando a violência de meu pai.
Vivi nas ruas de São Paulo por cinco anos. Saí de lá com a ajuda de uma mulher. Destas que a ausência de sabedoria popular chama de "mulher da vida" ou "mulher de vida fácil". Passado quatro meses sumiu sem dizer adeus e sem me dar a oportunidade de lhe agradecer. Agradeço-lhe aqui, e fico na esperança de que me leia, de que se lembre e saiba que lhe sou grato. Nem mesmo sei se seu nome era Fátima realmente ou se era um nome fictício.
Na boate, não demorou muito até que eu fizesse amigos e amigas. Muitas namoradas, todo dia uma diferente e nunca me fixei em nenhuma. Acho que, na verdade, tentava compensar o tempo perdido, a ausência de carinho e de afeto, os anos perdidos de minha adolescência. Embalei nessa loucura e nunca mais parei. Entre 18 e 32 anos de idade tudo o que fiz foi "correr atrás do prejuízo".
Eu sabia, sempre soube, da existência da AIDS. Mas achava que era um problema dos outros e que nunca aconteceria comigo; mas tinha também uma coisa, eu pensava: - se "pegar, pegou". Dane-se.
Pois bem, danei-me mesmo.
Aos 32 anos de idade fiquei muito doente. Em princípio, diagnosticaram gripe. Tratei como gripe; era uma meningite viral.
Dei entrada no Hospital Bandeirantes entre a vida e a morte e permaneci internado um bom tempo lá. A médica, não me recordo do nome, creio que Dra. Guadalupe, me pediu autorização para fazer o exame para HIV. Naquele estado, eu autorizaria qualquer coisa e quando acordei, treze de novembro, 1996, às15H43min, o resultado me esperava:
SOROPOSITIVO.
O mundo desabou para mim.
Por não ter conseguido jamais manter uma relação estável descobri - me só, sem amigos, sem ninguém que me apoiasse. Perdi meu emprego, perdi minha casa, na verdade um quarto de hotel, na Rua Aurora, fui abandonado pelos supostos amigos que tinha.
Fui viver em casas de apoio, nas ruas, e bati muito a cabeça por aí. Mas o tempo passou e eu não morri; não sequei como uma planta em um vaso sem água; descobri que a vida era possível mesmo com o HIV e que portar o HIV não significava uma sentença de morte. Decidi então, lutar por minha vida, por minha dignidade de ser humano.
Para permanecer vivo e saudável, sigo à risca as prescrições de meus medicamentos, regularmente, de tantas em tantas horas, todos os dias. É uma barra. Difícil de controlar mas importante. Uso agenda, computador e amigos, além de minha esposa para não perder os horários. Vou administrando os remédios como quem administra o oxigênio num submarino afundado (...).
Hoje, colaboro na manutenção de um site enquanto espero pela cura ou por outra coisa.
Mas, o mais importante é que assim como eu, outras pessoas têm uma história parecida com a minha e estão vivas. Não sou um milagre, não sou uma exceção.
A vida é sempre possível, mesmo com o HIV.
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