O dia de ontem não foi fácil, as emoções andaram á solta, e não eram daquelas divertidas ou fáceis de lidar. Foram emoções pesadas e que trouxeram imagens, nomes, pessoas, situações, histórias, muitas histórias que em 13 anos de PortugalGay.pt, 9 de activismo mais directo, e 41 de vida fui ouvindo e tomando conhecimento. E também ajudando pessoas a ultrapassar situações de vida ou a acompanhá-las até à partida da viagem de ida sem volta.
Comecemos então pelo princípio: programa de curtas, quatro filmes de onde destaco “My name is love”, a história de duas pessoas que se conhecem num engate que como tantos outros devia ser seguido de um acto consentido, acaba numa violação violenta, e fria. De onde uma das partes sai sinceramente magoado, ferimentos psíquicos que de tão profundos não consegue nem apresentar na policia embora tenha passado frente á esquadra quando fugia do que lhe tinha acontecido, à minutos atrás.
ShankDepois fui ver “Shank”. O registo anterior foi violento, o senhor que se segue também o é: um grupo de jovens que se diverte a atormentar toda e qualquer pessoa que encontram pelo caminho. Dois deles (Cal e Jonno) são muito íntimos, mas nunca são capazes de confessar esse amor um ao outro, Cal encontra uma forma de satisfazer as suas necessidades sexuais, marcando encontros pela net, sendo por vezes violento com as pessoas que encontra, depois de as servir, servindo-se. Olivier, chega à cidade, um jovem homossexual que poderíamos dizer bastante visível pelo seu comportamento efeminado é atacado pelos três amigos, Cal, Jonno e Nessa, a líder do grupo. Enquanto Jonno espanca Olivier, Nessa filma com o telemóvel, ao mesmo tempo que Cal vai pedindo que parem... até Cal não aguentar mais a cena e impedir que continuem. Cal segue Olivier por quem vem a desenvolver uma relação… mas entrar num gang é fácil, já sair é outra conversa, algo bem mais grave do que ser homossexual. O gang do filme é similar as que alguns de nós já conhecemos ou já ouvimos falar: mais ou menos organizados, eles existem e precisam ser apontados para as autoridades estarem atentas.
Remate para o fim da tarde, Richard Zimler, conheceu Harvey Milk! Cerca de uns 45 minutos a escutar como havia sido a sua passagem pela Rua Castro, em São Francisco. Delicioso por um lado, e um sentimento de inveja por ter conhecido alguém tão extraordinário como Milk, afinal eu até tenho o mesmo nome “Leite”. Como gostaria de ter sido eu a contar aquelas histórias, era sinal que o tinha conhecido.
Pedro
Fui jantar e voltei para a sessão da noite com uma longa-metragem e um conjunto de curtas que não achei minimamente interessantes. Mas a longa-metragem foi de arrasar. “Pedro”, ou devemos dizer Pedro Zamora, um Cubano que foi para Miami, e que por causa de um reality show passou a ser o rosto de uma luta que nos anos 80 estava a dar os seu primeiros passos, Pedro era seropositivo desde os 17 anos e disse-o no show da MTV, afirmando-se como homossexual também. Pedro inicia a tarefa de ir de escola em escola, de plateia em plateia falar como se previne, e como se vive com o VIH/Sida. Os amigos que se juntam a ele, o namorado que o idolatra, e para rematar com chave de ouro, o seu trabalho é reconhecido pelo então Presidente dos Estados Unidos da América, Bill Clinton (que continua hoje em dia a lutar pela prevenção VIH/Sida e contra o Aquecimento Global). O nosso querido Pedro Zamora, morre aos 22 anos, rodeado pela família, os amigos, e o mundo que seguia as notícias do seu estado. Para muitos Pedro foi o único amigo (mesmo que da TV) que conheciam com VIH/Sida.