Dois comunicados seguidos contra a transfobia

por transfofa terça-feira, 17 Maio 2011 13:16

No dia 15 de Março foi enviado aos meios de comunicação e associações e grupos LGBT o seguinte comunicado:

Grupo Transexual Portugal

Apresentação Grupo Transexual Portugal; Transfobia em notícia da Lusa

Por se ter considerado haver necessidade de uma voz transexual própria, independente dos lobbies clínicos e LG, considerou-se necessária a constituição de um grupo que reúna as seguintes condições
  • que lute contra a patologização da transexualidade;
  • que lute contra a associação da transexualidade com as Cirurgias de Redesignação de Sexo e outras cirurgias;
  • que lute contra a intolerável e abusiva ingerência da Ordem dos Médicos nos processos de transexualidade;
  • que lute por um tratamento digo e respeitador dos media quando relatam factos sobre transexualidade e/ou quando entrevistam pessoas transexuais:
  • que lute contra a discriminação e a transfobia instaladas, fora e dentro da comunidade LGB e mesmo na T;
  • que lute pelo esclarecimento do que é a Identidade de Género e pela IG de cada pessoa;
  • que lute pela eliminação da transexualidade da nomenclatura generalista "transgénero";
  • que lute pela defesa do respeito e dignidade de qualquer pessoa transexual, independentemente da sua ocupação laboral;
  • que se assuma como voz independente;
  • que incentive o activismo dentro da comunidade transexual portuguesa;
  • que defenda e promova o direito de qualquer pessoa transexual a uma vida digna.
Como primeira acção vimos denunciar mais um tratamento desrespeitoso da transexualidade e consequentemente das pessoas transexuais por parte da Agência Lusa e que por seu intermédio foi largamente distribuído por um grande número de meios de comunicação social.
 
Como se pode observar em qualquer notícia, o tratamento dado a (mais) uma jovem mulher transexual, mesmo sabendo que o nome dela era Luisa, é o que foi dado contínua e reiteradamente pelos media no triste caso de Gisberta Salce Júnior e noutros mais recentes: tratam-na sempre no masculino.
 
Tal tratamento, além de ser ofensivo para a dignidade de uma mulher que infelizmente nasceu com gentália masculina, não respeita a sua Identidade de Género e, por seu intermédio, ofende e prejudica gravemente todas as pessoas que se encontram na mesma situação.
 
É este tipo de tratamento que ajuda a que situações como esta se continuem a verificar continuamente ano após ano.
 
Mesmo pensando-se que a Lusa nada mais fez que traduzir a notícia dos jornais venezuelanos, tinha a obrigação de saber que Portugal não se encontra na América Latina mas sim na Europa. E que na Europa cada vez mais se dá a importância devida à Identidade de Género, tal como recomendado inúmeras vezes pela União Europeia, não esquecendo que em Portugal se pode agora alterar nome e sexo em concordância com a IG de cada um.
 
Tal tratamento é estigmatizante e aglutinador da discriminação ainda existente, ainda mais quando se aproxima o 17 de Maio, dia de luta contra a homofobia e transfobia. É revelador da necessidade premente de educação de quem se mete a escrever sobre temas sobre os quais nada sabe ou que nem se importa com quem ofende e desrespeita.
 
Lamentável sobre todos os aspectos e que levanta um grito de repúdio e revolta da parte de quem lute pelos direitos humanos.

Pelo Grupo Transexual Portugal, 
Eduarda Santos e Lara Crespo

Praticamente no dia seguinte o segundo comunicado:

Comunicado​: Mais Transfobia no Dia Internacio​nal contra a Homofobia e a Transfobia

Mais uma vez o grupo Transexual Portugal vem por este meio demonstrar o seu repúdio pelo tratamento dado pelos meios de comunicação e por um sexólogo às pessoas transexuais.

Numa notícia feita para hoje, 17 de Maio, o Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia, intitulada "Dia Mundial de Luta contra a Homofobia e Transfobia - Sara entrega pedido de mudança de nome e género no registo civil", difundida pelo jornal Público (não mencionado é a fonte da notícia, a agência Lusa, como se pode comprovar pelas notícias do DN: "CASA assinala Dia de Luta contra Homofobia e Transfobia" e pela notícia da TVI24: "Transexuais: CASA apoia Gil a ser Sara"). Refere-se a do Público por ser a mais completa.

Como de costume referem-se a uma mulher transexual como "um" transexual, reafirmando a não aceitação da Identidade de Género da pessoa, o que como já se afirmou, é desrespeitador e ofensivo para a pessoa em causa, e para a generalidade das pessoas transexuais.

Agradeciamos que a agência Lusa,o jornal Público e a TVI24 evitassem ao máximo este lamentável tratamento, evitando também que sejamos forçados a emitir diariamente comunicados condenando este tipo de transfobia. Ainda por cima no dia em que é.

Mas ainda há mais. Não contentes com isto, ainda divulgam o nome de baptismo da pessoa em causa. Não se sabe se foi com autorização da pessoa em causa, mas o discurso, em que somente o sexólogo fala em discurso directo, leva a perceber-se que a entrevista foi com ele e não com a transexual.

A ser assim a atitude deste sexólogo é contrária ao espírito da lei, que inclusivé tem um artigo a proteger a divulgação do nome de baptismo, e desrespeitadora das pessoas transexuais, que não aceitam esse nome como seu. Para alguém que diz ter 20 anos de experiência destes casos, já devia ter aprendido esta regra elementar há pelo menos uns 19 anos. Também é condenável ver-se que um sexólogo tem um estereotipo do que é uma mulher, sabendo-se da variedade humana existente. Questiona-se como será com uma mulher transexual que não se encaixe dentro do que considera como "mulher perfeita".

É lamentável que neste dia 17 de Maio, haja necessidade de se emitir um comunicado para outra coisa que não fosse a celebração deste dia. Mais lamentável é que neste dia estes tratamentos indignos e desrespeitosos continuem a ser a norma e não a excepção.

Pelo grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo

A todas as associações e grupos que concordem, pede-se que escrevam um comunicado e o enviem para os media. Este abusivo tratamento tem de acabar algum dia. Hoje, 17 de Maio, juntemo-nos e iniciemos o seu desaparecimento.

Tags: