Mudar de hospital: a luta: Parte III: Confronto

por transfofa terça-feira, 04 Outubro 2011 19:15
Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe...

Estávamos a 16 de Setembro, e finalmente o processo tinha aparecido.

Depois de tanto tempo perdido com este vai e vem a somar ao tempo perdido por causa da tromboflebite, penso que será compreensível para toda a gente que estava um bocado ansiosa para que as coisas começassem a andar.

A juntar ao facto de se estar a aproximar cada vez mais o fim de ano e ainda não ter o relatório para mudar nome e género, nem saber quem mo iria passar. Também a Lara, com o processo completo desde 2007, se encontrava a aguardar pelo relatório desde Julho. E como o relatório dela deveria ser, em princípio, emitido pelo Prof Dr Rui Xavier Vieira, decidimos pedir para falar com ele. Preenchemos uns impressos que servem para esse pedido, e fomos aguardar para a entrada da secção de psiquiatria do Santa Maria.

Enquanto aguardávamos, comentámos uma conversa que tive com o Prof Dr pouco tempo depois da lei de alteração de nome e género ter saído. Nessa conversa eu interroguei-o sobre os referidos relatórios, e fiquei a saber que o Prof Dr, pelo menos nessa altura, não passava relatórios a ninguém sem saber ao certo o que exigiam as conservatórias. Depois de eu argumentar com o facto (digo eu) de as conservatórias não poderem exigir nada que não estivesse contemplado na lei, o Prof. Dr mostrou-se irredutível na sua posição.

Pouco tempo depois vim a saber por intermédio de terceiras pessoas (portanto não confirmado) que o Prof Dr afirmara “que era um homem muito ocupado e que tinha mais que fazer que estar a passar relatórios”. Pode não ter sido exactamente por estas palavras, mas o sentido era este. Pelo que conheci da pessoa em questão não tenho dificuldade nenhuma em acreditar que tenha efectivamente dito isto. Se foi somente como desabafo ou sentido, não faço a menor ideia. Portanto foi na posse destes dados que estava preparada para ir falar com o Prof Dr.

Era minha intenção informá-lo que o processo (finalmente) se encontrava lá e que a minha intenção era ver se ainda faltava alguma coisa e caso não faltasse, enviá-lo para a OM, e requerer o relatório para alterar a documentação.

Estávamos nós a conversar, vimos o Prof Dr a sair da ala dos gabinetes pelos vidros da porta. Quase a seguir, veio uma das funcionárias da secretaria informar-nos que o Prof Dr tinha uma reunião e não nos podia receber.

Uma coisa curiosa (ou não) sobre o Prof é que, seja porque motivo for, mesmo que seja só para fazer uma pergunta ou obter uma informação, insiste sempre em que se marque consulta. E as consultas são marcadas unicamente por ele e, regra geral, são-no para um espaço de tempo que media entre um mês e meio e três meses.

Portanto na prática isto implica, por exemplo, que vai-se lá hoje pedir para informarem o Prof para marcar consulta, vamos embora sem a consulta marcada e quando o Prof a marca recebe-se em casa a marcação. Ou seja, íamos em Setembro para pedir os relatórios e só o podíamos fazer lá para Novembro/Dezembro. Some-se a isto o tempo necessário para a sua emissão (o meu relatório de segunda opinião demorou uns oito meses e era só metade de uma folha.

Para que se compreenda bem de que tipo de relatório se fala, fica aqui um exemplo, retirado do site do Dr Décio:

“RELATÓRIO CLÍNICO
Ao abrigo da alínea b) do nº 1 do artigo 3º da Lei n.º 7/2011, de 15 de Março, atestamos que XXXXXXXXXXXXXX, portador/a do BI nº XXXXX, tem o diagnóstico de Perturbação de Identidade de Género (Transexualidade), não sofre de anomalia psíquica e tem sido regularmente seguido/a em Consulta por Equipe Multidisciplinar de Sexologia Clínica.
Por ser verdade, aplica-se o disposto no artigo 2º da supracitada Lei para efeitos de mudança de sexo e de nome próprio no Registo Civil.
Lisboa, XX de XXXXX de 2011”

Portanto, como se pode comprovar, não é extenso nem complicado nem demora séculos a ser feito. Uma pessoa que escreva/tecle devagarinho penso que poderá fazer uns dois documentos destes a cada cinco minutos.

Como curiosidade, no mencionado site do Dr João Décio Ferreira, encontra-se a seguinte frase, que me parece bem elucidativa do estado das coisas: “Sabemos que todas as Equipas estão a passar às pessoas a quem já fizeram o diagnostico, relatórios semelhantes . A única excepção é a equipa do CHLN/Hospital Santa Maria, do Prof Rui Xavier Vieira, que ainda não passou nenhum relatório mesmo aos já diagnosticados há vários anos e já operados com autorização da Ordem dos Médicos.” Penso que isto dispensa comentários.

Era sexta-feira, eu tinha um quisto sebáceo a infectar no meu ombro esquerdo, fomos para casa. A caminho decidi-me a ir aos relatórios clínicos da central de consultas e fiz o meu pedido de relatório. Sempre se poupa tempo.

É minha opinião que quem me devia passar o relatório devia ser o Dr Pedro Freitas e a psicóloga Íris Monteiro. Eles é que me acompanharam na maior parte do processo.

Nesse fim de semana fui ao SAP onde me espremeram o quisto a sangue frio no Sábado e no Domingo fui fazer um penso (e espremer mais um bocado).

Na Segunda, 19 de Setembro, fui ao centro de saúde novamente mudar o penso (e espremer mais) e depois seguimos para Santa Maria para tentar contactar o Prof.

O Prof não se encontrava lá, encontrava-se a fazer exames e nos mesmos impressos que sevem para requerer contacto, escrevi o que pretendia. Sabendo de antemão que o Prof nem devia ler o que lá estava.

Durante o resto da semana tive de ir todos os dias mudar o penso (e espremer) e estava sem dinheiro para poder deslocar-me a Lisboa para o tentar contactar.

Na sexta feira depois do penso (e das espremidelas) lá arranjei dinheiro para gasolina (5 euros chega) e lá fomos novamente para Santa Maria.

Novamente preenchemos os impressos e aguardámos na entrada. E desta vez o Prof veio. Mas em vez de nos chamar ao gabinete, veio ter connosco à entrada, já preparado para se ir embora.

Perguntou então o que queria. Eu disse-lhe do processo e tal,e ainda nem tinha falado nos relatórios já o Prof, com a voz um bocado alterada (quase a berrar) me interrompia. Foi mais ou menos isto que me disse: “OM? Qual OM? Você vem para aqui para fazer o processo do princípio. Mas afinal porque pediu transferência?”

Em voz alta disse-lhe que tinha ficado sem quem me fizesse o processo no Júlio, ao que ele retorquiu que “Havia equipe no Júlio”. E virando costas ainda disparou “Falamos depois disto na consulta”. E saíu porta fora.

Ainda fui atrás dele para indagar sobre os relatórios mas o Prof nem se virou, fazendo somente um trejeito com a cabeça.

A Lara nem teve tempo de falar. Bem, ela nem teve direito a um “olá” do Prof.

Não posso deixar de mencionar a completa falta de respeito demonstrada pelo Prof pelos seus pacientes. Não lhe fica nada bem como profissional. Quanto à sua educação, realmente títulos académicos nada têm a ver com educação. O modo como fala com as pessoas é bem prova disso.

Como já vou conhecendo o Prof, dirigi-me à secretaria para que me informassem para quando estava marcada a minha consulta. É que se fosse para daí a meses, tinha de continuar a lá ir, pois não estou para esperar quase um ano pelo relatório.

Basta pensar que durante as minhas idas ao SAP e ao centro de saúde, toda a gente me tratava no feminino até saberem do meu nome. A partir daí era no masculino ou neutro e com risinhos abafados e sorrisos óbvios.

E sinceramente já estou farta deste tipo de situações que acontecem em todo o lado. Deixei de ir ao centro de emprego para evitar que o mar de gente que sempre lá se encontra fique de olhos esbugalhados a olharem para mim sempre que o meu nome é mencionado. Porque até essa altura ninguém me dedica um segundo olhar, e a partir daí não tiram os olhos de cima de mim. Com as mais variadas expressões faciais. Já para não falar de empregos, em que só falta dizerem-me textualmente “Não nos contacte, nós contactá-lo-emos”. O que evidentemente nunca acontece.

Enfim, na secretaria informaram-me do que já estava à espera. Nenhuma consulta estava marcada. Fiz o pedido para marcação, mas garantidamente se encontrar outra pessoa que me possa fazer o pouco que falta do processo, nem penso duas vezes.

Quer dizer, depois de três anos de processo (os outros dois não contam devido a estes problemas em mudar de hospital e devido à tromboflebite de que fui vítima), de já ter a segunda opinião feita, O Prof Dr quer que inicie o processo do início? Então este tempo todo estive a fazer o quê? Das duas uma, ou eu sou mesmo doente mental e não vejo algo que devia ver, ou o Prof Dr nem pensou no que disse.

Psiquiatras e psicólogos devem servir para ajudar a melhorar a saúde mental dos pacientes, sejam eles quem forem, e não tornarem-se na origem de mais stress e depressão, para isso já basta o estado do país, e facilitarem a vida às pessoas, não para a complicarem ainda mais.

Cabe na cabeça de alguém isto? Se couber, óptimo, mas na minha não cabe.

Não posso deixar de mencionar aqui a culpa que cabe às pessoas transexuais. Muitas delas, por medo de represálias sobre os respectivos processos, baixam a cabeça e aceitam caladas e subservientes todas as indignações e mais algumas que alguns profissionais de saúde teimam em protagonizar. Se bem que por um lado seja compreensível, por outro lado temos de ter consciência de que temos direitos e como mulheres e homens não temos de nos sujeitar a indignações e tratamentos abusivos caladas. Por mais que não seja, sempre podemos e devemos denunciar publicamente estas atitudes. É o nosso dever como seres humanos.

Fica aqui a denúncia pública sobre o tratamento dado por determinados profissionais do SNS e sobre o, por vezes, funcionamento deficiente do mesmo. Estes casos, em vez de serem denunciados publicamente, são escamoteados por todos, profissionais de saúde, media e pelas próprias pessoas transexuais, atitude que leva a que os casos se perpetuem, sem resolução e sem virem a público.

Porque razão, cada vez que há um artigo nos jornais ou uma peça na televisão, estes problemas nunca são focados? Seria bom ver por uma vez um artigo ou uma peça televisiva que focasse estes ou outros problemas em vez da costumeira lenga lenga dos coitadinhos dos infelizes que sofrem tanto até fazerem as cirurgias. Era capaz de ajudar mais.

Por exemplo, porque razão, numa recente peça sobre transexualidade, não foi questionada a razão porque nos Hospitais da Universidade de Coimbra se anda a sonegar informação pertinente às pessoas transexuais? Saber-se que técnicas vão utilizar e em que medida essas técnicas representam (ou não) um avanço em relação às que se utilizavam não é um pormenor menor. Bem como o saber-se onde foram fazer o estágio, com quem e por quanto tempo.

Fim (até ver)

Mudar de hospital: a luta: Parte II: bater contra as paredes

por transfofa sexta-feira, 30 Setembro 2011 16:34

Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe... 

Depois de ter ido ao Júlio de Matos pedir a transferência do processo, resolvi aguardar para dar algum tempo para o processo seguir viagem e para que no Santa Maria, ao receberem o processo, me marcassem consulta.

Neste compasso de espera, aqui ficam mais alguns dados sobre o passado.

No seguimento da saída do Dr Pedro Freitas do Hospital Júlio de Matos, e ainda com Íris Monteiro em plenas funções, marcou-me uma consulta com um psiquiatra, do qual não me recordo o nome, ainda jovem. E lá fui eu falar com o Sr Dr. A meio da consulta, da qual não tenho a data, pergunta-me ele: “Mas afinal porque é que lhe marcaram consulta comigo?”

Fiquei sem saber que resposta dar. Estava plenamente convencida que deveria ser o psiquiatra que trataria dos casos de transexualidade no hospital devido à saída do Dr Freitas. E o que lhe disse foi que tinha sido a Íris a marcar. Ele, coitado, lá me explicou que não tinha experiência nenhuma com pessoas transexuais e que ia contactar a Íris para saber os porquês. E a consulta acabou aí, e nunca mais o vi. Nem nunca mais tive contacto com qualquer psiquiatra lá.

Agora há datas que me faltam, mas a sequência dos acontecimentos está correcta. depois de algum tempo de espera, resolvi dirigir-me ao Júlio para pedir uma cópia do ofício em que tinha sido enviado o meu processo. Depois de me encontrar na posse da cópia, telefonei para o santa Maria para marcar consulta com o Prof Dr Rui Xavier Vieira, convencida que na altura da consulta o processo já lá estaria, visto as consultas serem quase sempre marcadas para um mês ou mais depois. Lá ma marcaram para daí a um mês e tal, e lá veio outro compasso de espera.

Nos entrementes, mais uma recordação. Quando ainda andava a fazer a segunda opinião com o Prof Dr Rui Xavier Vieira, e por sua ordem, estive duas manhãs e um dia inteiro a fazer testes psicológicos num piso lá para cima do Hospital. Nunca na minha vida tinha feito tantos testes de enfiada. Bem, mas fiquei a saber que possuo uma mente sã.

Veio a consulta e a minha confiança era tanta que assim que entrei no consultório retirei da minha mala a cópia do ofício e entreguei-lhe para ele ver. Com tanta sorte que, em vez de retirar o ofício (estava sem óculos) retirei um outro documento que nada tinha a ver. O Dr viu, e perguntou-me o que tinha ele a ver com o documento, e só aí é que vi o meu erro. Bem lá lhe entreguei o documento certo e nessa altura fiquei a saber que o processo não se encontrava lá.

Bem, fiquei desiludida, furiosa, zangada, uma mistura de emoções. Saí de lá e dirigi-me logo ao Júlio de Matos. Expliquei o caso e fui informada que a cópia do processo tinha sido enviada e que para enviarem outra vez tinha de ser o Prof Dr a requerer. Como já era tarde, regressei à base e uns dias depois, não me recordo bem de quantos, fui novamente ter com o Prof Dr para ver se ele requeria o processo. Durante esse tempo, ia telefonando para o Santa maria para ver se já lá tinha chegado. Cheguei a ligar para os arquivos, a ver se se encontrava lá arquivado por alguma razão, mas baldadamente. O processo não se encontrava lá. O Prof Dr recusou-se logo a pedi-lo, coisa de que já estava à espera. E fui para casa remoer. 

Nos entrementes, mais uma recordação. Quando tive alta do internamento da tromboflebite, começei a pensar como iria resolver o problema do tratamento hormonal. Qualquer pessoa que conheça um bocadinho sobre as pessoas transexuais sabe que a hipótese de parar com o tratamento está completamente fora de questão. Mesmo com risco de vida. Voltar atrás é que não. Nunca. Portanto depois de muito labutarem, as minhas pequeninas células cinzentas deram-me uma ideia. Para parar com a ciproterona e poder diminuir as hormonas só havia um caminho a seguir: os tintins (testículos) fora o mais rápido possível para evitar mais danos provocados pela testosterona que produzem.

Vai daí, num dia em que a Lara foi falar com o Dr Décio Ferreira, mandei recado por ela para a possibilidade de os retirar as soon as possible. O Dr Décio atenciosamente prontificou-se logo a fazê-lo assim que a Ordem dos Médicos o autorizasse. Ou seja a OM sobrepõe-se a tudo, mesmo ao bem estar de pessoas que ao serem forçadas a continuar o tratamento hormonal possam pôr a sua vda em risco. E com o andar da carruagem bem podia dar-me um piripac e ir desta para melhor de vez que os nossos grandes cirurgiões ficavam com a consciência bem tranquila protegidos pela autorização (ou falta dela) da OM. Gostei de ver o nível de preocupação demonstrado porquem tão ciosamente afirma a pés juntos ser um defensor das pessoas trans e do seu bem-estar.

Mais dias se passaram e decidi-me a ir ao Júlio de Matos falar com a psicóloga Catarina Soares pois sabia que também tratava destes casos, a ver se, ou ficava com o meu processo, ou arranjava maneira de o reenviar. Isto, entretanto, já em Junho deste ano, pois o tempo foi passando (não pára).

A Catarina Soares declinou logo o ficar com o processo (já tinha pedido o seu envio, não havia volta a dar) e foi procurá-lo para o mandar enviar registado e com aviso de recepção. Quando regressou com o processo, fiquei a saber que o mesmo tinha sido reenviado uma segunda vez, depois da minha ida ao hospital a indagar. 

Depois disto tudo, mais precisamente a 29 de Julho deste ano, fui com a Lara (que ia ter uma consulta com o Rui Xavier Vieira) ao Santa Maria, e aproveitei para perguntar por ela se o processo já lá estava. O professor novamente disse que não e perguntou porque razão não me davam o processo em mãos para eu o levar. Aproveitei o facto da Lara se dirigir à secção dos relatórios clínicos para pedir o seu para poder alterar finalmente o nome e género na sua documentação (já tem o processo concluído desde Novembro de 2007, data em que recebeu a autorização da Ordem dos Médicos para as cirurgias) e dirigi-me à secção onde o Santa Maria recebe o correio para ver se tinham registo da chegada dele. mas não, só se tivesse ido registado.

Com tudo isto veio o verão, mais um compasso de espera, pois no verão pára tudo (ou quase tudo). Em Setembro lá fui novamente tentar falar com a Catarina Soares, pois o processo insistia em não aparecer no Santa Maria. E foi quando fiquei a saber uma coisa interessante: das duas primeiras vezes o processo tinha sido enviado e devolvido pelo Santa Maria. As razões ignoro-as mas o não conhecimento de que o Prof Dr Rui Xavier Vieira dava consultas lá não me convence. Falei com a chefe da secretaria que muito simpaticamente me garantiu que o ia enviar uma terceira vez (a da Catarina que era para ter ido registado e com aviso de recepção nunca seguiu) registado e com aviso de recepção, e para eu lá ir na semana seguinte que me fornecia uma cópia do ofício.

Bem, lá fui na semana seguinte, recebi a cópia e dirigi-me ao Santa Maria para ver se já se encontrava lá. E, finalmente, lá estava ele.

Tinha demorado desde 29 de Junho de 2010 a 16 de Setembro de 2011 a ir do Hospital Júlio de Matos ao Hospital de Santa Maria. E a minha vida parada e a ficar cada vez mais velha.

Fim da segunda parte


Mudar de hospital: a luta: Parte I: a saga inicia-se

por transfofa quarta-feira, 28 Setembro 2011 00:40

Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe...

Num pequeno planeta num pequeno sistema solar perdido nos braços de uma galáxia em espiral, existiam pedaços de terra que emergiam da vastidão de um oceano. No extremo ocidental de uma dessas massas de terra vivia um povo em decadência, já muito longe dos seus tempos áureos. A capital desse povo chamava-se Lisboa. Eu vivia na periferia dessa capital.

Existiam dois hospitais na zona de Lisboa que tinham equipas para os processos de transexualidade: o Hospital Júlio de Matos e o Hospital de Santa Maria. No Hospital Júlio de Matos encontravam-se o Dr. Pedro Freitas e as psicólogas Íris Monteiro e Catarina Soares.Em Santa Maria, por exemplo, exerciam esta função o Prof. Dr. Rui Xavier Vieira e o Dr. Daniel Sampaio.

Iniciei o meu processo no hospital Júlio de Matos em Fevereiro de 2006,com a psicóloga Íris Monteiro e posteriormente com o Dr. Pedro Freitas. Em Dezembro do mesmo ano, inciei a 2ª opinião no Hospital de Santa Maria, a meu pedido, pois usualmente a 2ª opinião era feita nos Hospitais da Universidade de Coimbra, o que me levantava problemas económicos relativos à ignorada quantidade de vezes que me teria de deslocar a Coimbra, com o Prof. Dr. Rui Xavier Vieira.

Em Fevereiro de 2008 acabei as consultas da 2ª opinião. O relatório, esse, só o vi em Novembro de 2008 (tem a data de 7/11/08). Só para obter este relatório demorei mais de dois anos e meio. Curioso como por várias vezes o próprio Prof. Dr. Rui Xavier tem afirmado que o processo completo (com a 2ª opinião incluída) demora dois anos, quando só um relatório emitido por ele demora mais do que esse tempo. O normal, pelas informações que recebi, é serem entre uma a cinco consultas para a 2ª opinião, pelo menos nos Hospitais da Universidade de Coimbra. As minhas foram 13, salvo alguma que me tenha esquecido de apontar.

O processo própriamente dito roda todo à volta das cirurgias. A grande preocupação é que a pessoa tenha vontade em se submeter a elas. A identidade de género da pessoa não passa de um pormenor, um acidente de percurso. O foco são as cirurgias. São feitos testes para despistar posíveis doenças mentais que possam existir, sendo que no caso de existirem o processo é imediatamente terminado. Poder-se-à presumir então que a transexualidade fornece uma qualquer espécie de imunidade a qualquer doença psíquica? Sinceramente não me parece. A realidade é que não sabem diferenciar a transexualidade de uma doença psiquiátrica..Portanto mesmo que apesar de se ter uma qualquer doença psíquica poder-se ser transexual, essa realidade é automaticamente negada,

Curiosa também é a percepção que o psicólogo que me acompanhou na 2ª opinião teve do meu tratamento hormonal, Pedro Pechorro de seu nome. Eu iniciei o meu tratamento hormonal algum tempo antes de iniciar o processo (um ou dois anos, mais ou menos). A hormona que tomava chamava-se Premarin e mandava vir pela internet através de uma pessoa conhecida. Um belo dia decidi procurar na net informação sobre este composto hormonal, que efectivamente foi o que me desenvolveu o peito, e descobri um facto que achei deveras curioso: era sintetizado da urina de éguas grávidas. Nunca mais me esqueci disto e mencionei-o numa qualquer consulta como facto curioso. O resultado disto foi esta frase que consta do meu relatório de 2ª opinião: “(...) Diz que tem as mamas desenvolvidas porque bebia urina de éguas grávidas,”

Não preciso dizer que moro em Almada que nesta altura já se encontrava bastante urbanizada. Portanto estão a ver os problemas que teria: descobrir picadeiros ou outros sítios que tivessem éguas, saber se estavam grávidas e se alguma encontrasse nestas condições passar os dias atrás dela à espera que urinasse e guardar a urina bem acondicionada.

Levei o relatório para a psicóloga Íris, que notou logo que o mesmo não se encontrava assinado, entre outros problemas. Para encurtar uma história longa, depois de andar várias vezes entre os dois hospitais, que ainda demorou alguns meses, pois não podia fazê-lo todos os dias, e tinha de esperar amiúdas vezes por consultas, que podem espaçar um ou mais meses entre elas, lá consegui resolver o imbróglio.

Entretanto algumas coisas se tinham alterado no Hospital Júlio de Matos. O Dr Pedro Freitas, nos finais de 2007, tinha abandonado o Hospital Júlio de Matos para, soube-o posteriormente, ir para o ILAS (Instituto Luso Americano de Sexologia), entidade privada, onde, penso eu de que, continuou a trabalhar na mesma área. De notar que no Hospital Júlio de Matos tratava da parte de endocrinologia.

Como resultado, ficou o Dr Carlos Fernandes a tratar da parte endocrinológica.

A 24 de Março de 2009 fui internada na Cirurgia Vascular do Hospital Garcia de Horta com uma trombose venosa profunda illofemoral-popliteia total oclusiva na minha perna direita. Saí a 27 de Março e tive de parar o tratamento hormonal durante um ano. O nome vulgar é tromboflebite, e embora não haja causa-efeito. soube depois que a idade, o tabaco e o tratamento hormonal encontram-se entre as coisas que as potenciam.

No ano anterior, sensivelmente em Outubro, numa consulta com o Dr Carlos Fernandes, já com a minha intuição a querer dizer alguma coisa, perguntei se não seria boa ideia reduzir o tratamento hormonal para metade. Estava a tomar dois comprimidos de Zumenon e dois de Ciproterona 50mg por dia. Como resposta foi-me dito que se diminuísse as doses por metade só fariam metade do efeito.

Quer dizer, ninguém precisa de ir a um médico, qualquer que seja a sua especialidade, para ouvir que metade de uma dose qualquer de um qualquer medicamento produz metade do efeito. Penso que isso é obvio para toda a gente. O que eu quereria ouvir era, por exemplo “dada a sua idade e o facto de fumar, a minha opinião é que deve reduzir as doses para evitar possíveis problemas futuros”. Ou seja, dizer-me o que eu não sabia e não o que é evidente..

Depois de perder a confiança neste médico, porque a perdi, estive à volta de um ano com o processo parado devido à tromboflebite. Quando decidi que já tinha parado por tempo suficiente, regressei ao Hospital Júlio de Matos para retomar o tão abruptamente parado processo.

Mais novidades: a psicóloga Íris já tinha saído do Hospital para o ILAS, embora ainda lá fosse para não abandonar os seus pacientes. E os problemas começaram aqui, com as marcações para as consultas. Seria ela a marcar, mas não atendia telefonemas, ou seja, não havia maneira de a contactar. Enviei emails, pois entretanto arranjei um endereço de email dela, e nada, nem uma resposta, nem um contacto, o tempo a passar e o processo parado.

A última vez que a vi pessoalmente foi em Março de 2010, no Anfiteatro III da Faculdade de Medicina da Universidade Nova, no Campo dos Mártires da Pátria em Lisboa onde se deu uma conferência intitulada “MUDANÇA DE SEXO na clínica, no bloco, na pessoa” onde ela era uma das oradoras. Nessa altura contactei-a pessoalmente e ficou acordado que responderia aos meus mails e foi quando me deu o seu email . No Dia 22 de Março enviei o seguinte email :

“Bom dia Drª Iris

Como acordado aqui lhe envio este email com o pedido para que o meu processo seja transferido para o Hospital de Santa Maria. Assim, agradeço-lhe que o faça seguir com a maior brevidade possível, visto já ter estado mais de um ano sem qualquer avanço significativo. Penso que isto significa também que necessitarei que junto com ele siga o relatório da avaliação da equipa que me acompanhou no Hospital Júlio de Matos, que passará a ser a segunda opinião.

Assim, agradeço-lhe que me informe se necessitarei de tomar alguma acção, ou se a Drª pode tratar de tudo sem necessitar de mim.

Um beijo

Eduarda Santos”

Dia 24 de Março enviei um segundo email com o número do meu telemóvel que, embora soubesse de antemão que já o tinha dado, alguma coisa podia ter acontecido, mudar de telemóvel e o número perder-se, por exemplo. No dia 31 de Março enviei um terceiro email. Até hoje espero resposta.

O tempo foi passando, a Íris deixou de ir ao Júlio e eu e outras pessoas a ver o tempo a passar. O Hospital também se deixou ficar. Visto que houve a saída de um elemento, seria de esperar que os seus pacientes passassem para outro, Catarina Soares, por exemplo. Mas não. Saíu, saíu, e os processos lá ficaram a ganhar pó.

Não faço ideia porque motivo Íris Monteiro abandonou completamente os seus pacientes no Hospital Júlio de Matos, sem ter tido o cuidado de passar os processos para outra pessoa. Para mim não me parece uma decisão ética, no mínimo. Também o próprio hospital poderia ter tido esse cuidado, visto os processos estarem a ser feitos lá. Como impressão parece-me que o hospital não estará muito interessado em continuar com estes casos, apesar de continuarem. Mas o tratamento dado ao meu processo e a outros que sei estarem na mesma situação não me parece ser o indicado.

Também penso não ser necessário referir a implicação desses abandonos (Pedro Freitas e Íris Monteiro) para a obtenção do relatório para poder alterar nome e género. Já tenho 53 anos, estou desempregada há mais de um ano, já não recebo subsídios e agora que o governo tem um programa específico para desempregados de longa duração, estou encravada sem ter a quem requerer o dito relatório. Claro está que inscrever-me sem essas alterações está definitivamente fora de questão. Mas isto é para ser abordado mais para a frente.

Até que um belo dia me fartei de tanta falta de respeito por pessoas que têm a sua vida parada demonstrado pelo Hospital, e fui eu própria pedir a transferência para Santa Maria, pois nunca fugi de um desafio. Também não conheço na zona outro hospital que tenha estas consultas pelo SNS. O ILAS é privado, portanto só serve a quem tem dinheiro. Desempregadas ou vão para Santa Maria ou para o Júlio de Matos.

Fica aqui a denúncia de situações que acontecem e que raramente ou nunca são mencionadas, e exemplos da forma como muitos psiquiatras e psicólogos tratam as pessoas transexuais, um belo exemplo vindo de pessoas que afirmam sempre que estão lá para ajudar. Não considero estes exemplos como éticos nem como exemplos a seguir. Espero que ajude a alterar qualquer coisa no atendimento às pessoas transexuais.

Infelizmente este tipo de casos não são excepção. Acontecem muito. E continuam a acontecer porque quem se encontra a fazer processo tem sempre receio de que, se falam ou se reclamam, antagonizam os psiquiatras e psicólogos com as evidentes consequências para os processos, que ou ficam em banho maria ou é-lhes mesmo negada a sua transexualidade como retaliação.

No dia 29 de junho de 2010, com o número de saída 4479, o processo seguiu. Ou assim pensava eu.

Fim da primeira parte.

 


Grupo Transexual Portugal - Comunicado

por transfofa quarta-feira, 31 Agosto 2011 10:40

COMUNICADO

No dia 29 deste mês, o jornal Público, na sua edição em papel, publicou um artigo de opinião, transcrito de seguida a fim de informar quem não o leu.


“Igualdade de género ou falsa identidade
por Gonçalo Portocarrero de Almada
Se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?

Quem viveu conscientemente o 25 de Abril, talvez ainda conserve, entre outras recordações, a lembrança de uma canção revolucionária em que, a páginas tantas, se badalava:“ Uma gaivota, voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar”.

Como nunca mais ouvi aquela melodiosa voz, temi que, embalada por um tão sugestivo texto, a dita cançonetista tivesse mesmo voado para parte incerta. Ou que,tendo desafiado as leis da gravidade, a experiência lhe tivesse sido fatal. Felizmente nenhuma destas aziagas hipóteses se confirmou, pelo que é de supor que ainda esteja disponível para ser de novo a voz do PREC, ou seja, do processo revolucionário em curso. A sua histórica balada é, com efeito, um magnífico hino à nova e subversiva política da identidade de género em que o anterior Governo, à falta de mais urgente e necessária reforma social, tão entusiasticamente se empenhou, depois de ter empenhado, com indiscutível êxito, o país.

Entende-se modernamente que a identidade pessoal não deve ser aferida por circunstâncias objectivas, como eram antigamente o sexo, a idade, a altura e o peso, mas sim por um acto libérrimo da vontade de cada qual. Assim, se um macho quer ser ofi ialmente fêmea, o Estado obedece ao capricho do cidadão e falsifica, a seu bel-prazer, o respectivo registo de identidade. Portanto, pela mesma razão, se uma septuagenária, de um metro de estatura e pesando cinco arrobas, quiser ser oficialmente uma menina de vinte anos, de um metro e setenta e quarenta quilos, também deveria poder sê-lo, se de facto se sente tão jovem, alta e leve quanto o dito
sujeito se acha feminino. Ou será que o faz-de-conta é válido para o sexo, mas já não para a idade, a altura e o peso?

Mas, se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?! Se o sexo já não é algo objectivo e predeterminado geneticamente, por que o há-de ser a natureza? Se a mulher pode “virar” homem e vice-versa, por uma simples declaração de vontade, por que não pode ser alguém, como Fernão Capelo, gaivota?!

Quem não gostaria de obter, oficialmente, o estatuto jurídico de ave protegida?! Não passarinho, que releva alguma inferioridade, nem passarão, que sugere algum governante ou administrador de empresa pública, mas pássaro, como a gaivota da canção, para ser livre, livre de voar! Para além da isenção de impostos e a inimputabilidade penal, a condição aviária tem grandes vantagens também ao nível da viação que, neste caso, passa a ser, muito propriamente, aviação.

A estas e outras razões gerais tenho a acrescentar umagratificante experiência pessoal quase-aviária. No ano passado, ao sofrer um acidente, tive que esperar pela ambulância, no lugar do sinistro, cerca de uma hora. Porém, quando na urgência do hospital me colocaram uma pulseira colorida, fui logo objecto dos mais extremosos e diligentes cuidados médicos. Enquanto ser humano, mereci pouca atenção, mas assim que, graças à bendita anilha, me confundiram com uma ave, beneficiei de imediato da principesca protecção dispensada às espécies em vias de extinção. Uma pessoa pode ser negligenciada e até impunemente morta antes de nascer, mas um animal protegido não pode ser maltratado. Moral da história: humano nunca mais! Ser ave é que está a dar!

Um slogan revolucionário exigia: 25 de Abril sempre! Não chegámos a tanto, mas, de certo modo, pode-se dizer que agora, graças à famigerada igualdade de género, todos os dias são dias de 1 de Abril, porque são dias de mentiras. Talvez não fosse despropositado criar um dia
anual da verdade, em que cada qual, mais por via de excepção do que por regra, seja, muito originalmente, o que de facto é. 

Licenciado em Filosofia e vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família”


O grupo Transexual Portugal vem por este meio demonstrar o seu mais profundo repúdio pelas diatribes e falsas presunções escritas pelo autor Gonçalo Portocarrero de Almada no referido artigo de opinião.

Com efeito este senhor demonstra uma total ignorância sobre o assunto que foca. Parece ignorar que, para se aceder à alteração de nome e género na documentação oficial, a pessoa transexual tem de passar por uma infinidade de exames exaustivos durante muito mais tempo do que se pensa ou se quer fazer acreditar. Portanto, ao alterar o seu nome e género encontra--se apoiada num diagnóstico exaustivo e não num qualquer acto subversivo de um qualquer governo.

E já que foca o assunto, esse senhor ainda não reparou que o estado em que o país chegou se deve não tanto aos sucessivos governos que tivémos (PSD e PS) mas mais a um ataque concertado ao Euro? Espanta que um licenciado em filosofia não tenha reparado numa tal evidência.

Mais demonstra de seguida uma total ignorância e compreensão do que é a identidade de género e do seu papel como parte determinante no género de cada ser humano. Troca os valores, pois efectivamente é antes da mudança que a identidade é uma "falsificação".

Também confunde a identidade de género com masoquismo, pois uma pessoa que "por capricho" deseje tal mudança para passar o resto da vida a "levar" com "brindes" deste tipo e outras discriminações e mesmo ofensas psicológicas e à sua integridade física só pode ser masoquista mesmo. Portanto a afirmação do "capricho" é bem demonstrativa desta confusão e da ignorância que tem sobre o assunto. É que a identidade de género não é escolha nenhuma, logo não pode ser capricho.

Percebe-se bem a razão deste tipo de discurso, nomeadamente o saudosismo expresso embora de forma encoberta, pelos idos tempos de antes do 25 de Abril, quando se sabe que a pessoa em causa é padre, pormenor que se esqueceu de mencionar. E como se sabe, a Igreja tinha um papel relevante de apoio ao regime, com fábulas que indicavam que quase mais valia ser pobre do que ser-se rico. E como se sabe, com os constantes e ininterruptos casos de pedofilia no seio da dita, qualquer representante dessa instituição tem pouca moral para criticar ou ajuizar.

Isto a juntar aos factos da instituição ter ajudado criminosos nazis, no final da 2ª Guerra Mundial, a escaparem ao julgamento dos seus crimes, fornecendo documentação falsa a muitos que fugiram para a América do Sul, nomeadamente Argentina. Isto põe em dúvida a moral de qualificarem algo como "falsidades". Como se costuma dizer "quem tem telhados de vidro não atira pedras ao céu".

Tal como o autor, lamenta-se que não se possa mudar de espécie. Não que este senhor tivesse alguma espécie que o desejasse acolher, mas por ter de dividir a humanidade com pessoas deste calibre. Mas diga-se em abono da verdade que, pelo menos na imputabilidade e nos impostos quem assim fala encontra-se em muito melhor posição que a restante população portuguesa, não precisa ser pássaro para isso. Porque pássaro engloba inúmeras espécies e ainda podia acontecer que, em vez de se ser um Fernão Capelo gaivota podia ser-se um abutre.

Curiosamente mesmo as espécies de aves protegidas são mortas antes de nascerem, portanto ainda no ovo, entenda-se. Por outros predadores e mesmo por outras aves. Aconselhava este senhor a ver mais documentários sobre a natureza, não são difíceis de encontrar, ao fim de semana na SIC e nos canais por cabo da National Geographic e Odisseia.

Remata com uma alusão à igualdade de género que compara a uma mentira. Logo, como bom representante da instituição a que pertence, nega às mulheres os mesmos direitos que detêm os homens. Com efeito, e sem nenhuma razão plausível, é negado às mulheres, por exemplo, o direito do sacerdócio. Portanto obviamente que este senhor não pode aceitar a igualdade de géneros. Nem devia desejar um dia da verdade. Podia ser descoberto como um preconceituoso, cheio de ódio, mentalmente incapaz de acompanhar o evoluir dos tempos e das descobertas científicas, um verdadeiro saudosista do antigamente.

O grupo Transexual Portugal lamenta também que este tipo de pessoas tenha voz num jornal com a qualidade a que nos habituou o jornal Público. Considera que este tipo de discurso não contribui em nada para a manutenção dos níveis de qualidade a que esta publicação nos habituou. Muito pelo contrário, discursos deste tipo, que nada mais fazem do que expôr as limitações mentais, desconhecimento e preconceitos de quem os escreve não são dignos deste jornal, sendo mais indicados para pasquins ou boletins de grupos de extrema direita, nunca para um jornal que tem primado por uma isenção exemplar.

Pelo grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo

 


Despatologização da Transexualidade: Sim ou Não? O comentário

por transfofa terça-feira, 19 Julho 2011 05:37

Volta e meia soa o rugido de uma rajada de vento demasiadamente fresco para esta época do ano. Estamos a 17 de Julho e o tempo devia estar substancialmente mais quente. Se calhar a classificação portuguesa das agências de rating tem mais implicações do que poderia parecer à primeira vista.

Estamos a 17 de Julho. Ontem, 16, um debate sobre a despatologização da transexualidade aconteceu no Centro LGBT  em Lisboa, organizado pela rede ex aequo - associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes, em colaboração com o GRIT - Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transexualidade da Associação ILGA Portugal.

Como oradores estiveram na mesa Sérgio Vitorino, das Panteras Rosa, Paulo Côrte-Real em representação do GRIT, a psiquiatra Ana Matos Pires e a psicóloga Gabriela Moita.

Como representantes da comunidade transexual (afinal era de transexualidade que se tratava) esteve... ninguém. Nem uma pessoa na mesa era transexual. Num debate que até é importante para a comunidade, a organização optou por silenciar as vozes transexuais e dar relevo à psiquiatrização. Nota negativa.

Nem a desculpa que me foi dada por um membro da organização, que “há uma componente científica neste debate” serve como desculpa, quando toda a gente sabe que os cientistas não fazem a menor ideia das causas da transexualidade, e a esmagadora maioria nem compreende o que é ser-se transexual.

Delirante mesmo foi a desculpa de não se encontrar nenhuma pessoa transexual na mesa: que “não existem pessoas trans suficientemente familiarizadas com o tema ou que possuam discurso coerente sobre o mesmo”. Obviamente que, com a quantidade de questões postas pelas oradoras Ana Pires e Gabriela Moita, que levantaram inúmeras questões sobre  os mais variados aspectos interligados à despatologização, a intenção de exclusão por estes motivos como que “deu para o torto”.

Antes de comentar sobre o evento propriamente dito, sinto necessidade de expôr aqui a minha posição sobre o assunto, visto ter sido acusada por um elemento da organização de não ter “um discurso coerente sobre este tema” e de “nem sequer sei (o elemento) qual é realmente a tua (minha) posição sobre este assunto”.

É evidente que esta pessoa não acompanhou os debates via email que tive durante estes anos com inúmeras pessoas na mailing list das Panteras, nomeadamente com o Sérgio, mas também com muito mais gente que integra essa mailing list. Também não tem demonstrado interesse em debater comigo o assunto, portanto é natural que ignore a minha posição sobre o mesmo.

Esta conversa da despatologização da transexualidade iniciou-se há uns cinco, seis anos atrás com o início de uma campanha internacional denominada “STOP trans pathologization 2012”, destinada a excluir do rol das doenças mentais o transgenderismo e a transexualidade (como elemento integrante da comunidade transgénero). Este movimento cresceu ao longo do tempo, com várias associações e grupos transexuais, transgéneros, e LGBTs a aderirem ao mesmo. De um modo simples, consideram os integrantes da comunidade transgénero como tendo identidades próprias (identidades trans) podendo ou não estarem incluídas no binarismo de género (Masculino e feminino) defendendo a existência de mais géneros, e defendendo a exclusão destas identidades da classificação de patologias, específicamente da classificação de doenças psiquiátricas ou doenças mentais. Quem desejar saber mais sobre o assunto, contacte as Panteras Rosa.

Portanto é a partir deste movimento que se começou a falar sobre despatologização.

Na teoria, tal como Gabriela Moita explicou no debate, qualquer pessoa deve ter o direito à sua auto-determinação e a auto-afirmar-se como pertencente a um qualquer género, desde que comprove encontrar-se na plena posse das suas faculdades mentais. Quer isto dizer desde que não sofra de qualquer doença mental inibidora da sua capacidade de tomar decisões. Isto é evidente. E por consequência faz todo o sentido a retirada da transexualidade do rol das doenças mentais.

Basta pensar-se que, presentemente, para se obter um diagnóstico de transexualidade, tem de se fazer precisamente os testes necessários que atestem que não se sofre de nenhuma doença mental. Isto para depois se ser diagnosticado como sofrendo de disforia de género ou transtorno de identidade de género, que se encontra classificada como doença mental.

Os pontos discordantes que tenho em relação a este assunto começa logo por não considerar a comundade transexual como pertencente à comunidade transgénero. Não concordo nem aceito essa aglutinação que a maioria quer. Considero a transexualidade como específica demais para se encontrar misturada com especificidades que nada têm a ver com transexualidade. Isto não quer dizer per se que não apoio as reivindicações da comunidade transgénero. Longe disso. Só considero que a transexualidade deve estar à parte.

Este ponto é per si só relevante o suficiente para o não apoio da campanha? Não.

O segundo, e mais importante, é o facto de, despatologizando a transexualidade, correr-se o risco real de deixar de ser comparticipada pelos serviços de saúde de cada país. Basta pensar-se que a maioria dos países não comparticipa mesmo sendo considerada como doença, quanto mais deixando de ser considerada como tal. Em Portugal, por exemplo, com o presente governo de direita  e com a crise que atravessamos, esse risco é bem real mesmo com a presente classificação como doença mental.

Este ponto é per si só relevante o suficiente para o não apoio da campanha? Sim.

Mas, por exemplo, alterando a classificação de doença mental para condição médica, resolve alguns problemas: deixa de haver o estigma da doença mental que, e apesar de um participante afirmar que o problema não está na doença mental mas na maneira como ela é estigmatizada pela população em geral e que se deve é educar a população, o facto é que o estigma existe e vai continuar a existir a médio e mesmo a longo prazo. Basta pensar-se na homossexualidade e como ainda é tão estigmatizada hoje em dia, apesar dos avanços conseguidos, para se ver que, embora a intenção seja boa, na prática não o é. Portanto seria uma solução a (muito) longo prazo, não o que se deseja que é uma solução a curto ou médio prazo.

Libertamo-nos da ditadura dos psiquiatras e psicólogos, que farão o seu papel de comprovar unicamente que uma pessoa se encontra com capacidade de tomar as suas próprias decisões, saindo debaixo da alçada de Zucker’s e Cª Lª e dos seus congéneres nacionais.

E continua-se e ter o direito inalienável à comparticipação do SNS.

Para mim esta é a melhor solução e é isto que defendo como despatologização da transexualidade. Mais, Sérgio Vitorino, numa das suas declarações, reforçou a ideia de que a campanha, apesar de mencionar despatologização, defende é a retirada da transexualidade do rol das doenças mentais.

Quando for claramente declarada esta solução como proposta da campanha, apoiá-la-ei imediatamente. Até lá, não apoio a campanha, embora apoie o seu espírito.

Outro ponto em que discordo da campanha é o discurso que implica a existência de outras identidades outsiders do binómio masculino/feminino (ou homem/mulher). Não aceito a existência destas supostas identidades.

Este ponto é per si só relevante o suficiente para o não apoio da campanha? Não.

Eu vejo este assunto da seguinte maneira: imagine-se dois pólos opostos, um o masculino/homem, outro o feminino/mulher. Entre eles existe, por exemplo, uma graduação que, imaginemos, vai de 0 a 100, sendo 0 um extremo e 100 o seu oposto. Entre eles existe uma infindável graduação onde cada pessoa cabe. Pessoas mais masculinas ou mais femininas colocar-se-ão entre os dois extremos. Não vejo necessidade de se estar a complicar mais com invenções de géneros alternativos porque as pessoas sentem-se mais posicionadas num lado do que o outro. Deixemos as coisas como estão, com dois géneros, que como se pode bem comprovar, já dão “água pela barba”.

Curiosamente uma pessoa que segundo entendi era mãe de uma pessoa transexual, defendeu a existência de mais géneros. E numa declaração bombástica, afirmou que as pessoas transexuais desejam as transformações corporais não por elas mesmas mas para os olhos da sociedade. Bem, a minha vontade foi levantar-me e dizer-lhe que se ela julgava que eu fazia tratamento hormonal para os seus lindos olhos bem podia tirar o cavalinho da chuva.

Esta declaração só me provou como é difícil a compreensão da transexualidade por parte de pessoas não transexuais, mesmo sendo progenitores de uma pessoa transexual e mesmo dando apoio a essa pessoa. Esta mãe não entende que as transformações corporais somos nós que as desejamos para nós, não para terceiros verem. Isto não obsta, evidentemente, que com as transformações venha o desejo de sermos reconhecidos do género a que sabemos pertencer. Eu digo até que este desejo existe mesmo sem transformações corporais.

O debate propriamente dito teve a seguinte fórmula: iniciou-se com algumas questões formuladas pela moderação aos oradores, uma pergunta a cada um, à vez. Este modo de se iniciar o debate teve, aliás, um problema -  em cada questão formulada só se fica a saber a posição/opinião de um dos oradores.

É minha opinião que o debate devia ter sido feito noutros moldes: um início pela moderação explicando o que é a despatologização, uma breve história de como apareceu, e depois as perguntas deviam ter sido feitas aos oradores, mas a todos as mesmas perguntas, não uma pergunta diferente para cada orador.

Talvez por recearem falta de tempo, ou por qualquer outra razão, a opção foi de uma pergunta a cada orador. Bem, foi uma opção, não a que eu teria escolhido, mas foi a escolhida.

Sérgio Vitorino, pelas Panteras Rosa e assumindo o discurso pelos activistas, defendeu a despatologização. É uma posição já sobejamente conhecida das Panteras Rosa.

Paulo Côrte-Real, em representação do GRIT, defendeu a continuidade da psiquiatrização da transexualidade, por as pessoas transexuais terem problemas psicológicos pela transexualidade.

Perguntei-lhe se defendia o mesmo para as pessoas homossexuais que tenham problemas derivados da Homossexualidade, disse que sim. Ora a homossexualidade já deixou de ser considerada como doença. Isto não impede de modo nenhum que homossexuais com possíveis problemas de auto-aceitação, de auto-estima, ou outro problema qualquer derivado da homossexualidade tenham consultas.

Portanto, do mesmo modo, uma pessoa transexual na mesma situação, portanto com problemas derivados da transexualidade, também pode perfeitamente ter o mesmo tipo de acompanhamento sem necessidade nenhuma da transexualidade se encontrar classificada como doença mental.

E isto porquê? Porque nem a homossexualidade nem a transexualidade são doenças. Basta pensar-se que não há nenhum tratamento para a transexualidade, tal como para a homossexualidade. O que se trata são possíveis problemas advindos do facto de se ser transexual/homossexual (depressões, falta de auto-estima, etc.). Do mesmo modo não há nenhum teste clínico ou psiquiátrico que defina a pessoa como transexual/homossexual.

Qualquer pessoa pode verificar isto: o que se faz é ver se a pessoa tem algum problema psíquico. Quando não se tem e a pessoa continua a insistir que é, então deve ser. Isto é o que os psiquiatras fazem. Não tratam a transexualidade pois nada há a tratar. O diagnóstico é feito na base de não se ter nenhuma doença mental. Não se tem então ok, é transexual.

Esta abordagem sempre me pôs uma questão: porque razão não pode haver uma pessoa transexual com alguma doença psiquiátrica, tal como existem pessoas cissexuais com essas doenças? A transexualidade á alguma imunidade a outra qualquer doença psíquica?

O facto é que, e isto é prova de que os nossos psiquiatras e psicólogos não fazem ideia do que é a transexualidade, se alguma pessoa transexual tiver o azar de sofrer de alguma doença psíquica, vê os seus direitos imediatamente eliminados, bem como o seu reconhecimento e a sua identidade como pessoa transexual. Isto é grave, mas nunca se fala, é tabú.

Portanto a posição do GRIT é psiquiatrizante e estigmatizante. Não foi apresentado um argumento que não possa ser rebatido.

Gabriela Moita teve um discurso coerente com as suas ideias, embora, e de certeza com desagrado da moderação, tenha levantado mais questões do que muita gente esperava. Tal como eu disse a um elemento da moderação no Facebook, “tenho por costume questionar sempre tudo e todos, sejam a favor seja contra alguma coisa, mesmo questionando o que apoio. Não acho que existam verdades absolutas e inquestionáveis. E é graças a estas questões e às respostas dadas que vou formando a minha opinião.”, quando me acusaram de não ter um discurso coerente por, e cito, “Tanto te demonstras contra com toda a veemência, como te demonstras a favor. Tanto entras em conflito com quem está a favor, como com quem está contra... “

Bem, com a quantidade de questões formuladas por Gabriela Moita, a moderação deve ter ficado com algum amargo de boca, pois parece que não sou só eu a questionar.

Ana Matos Pires teve um discurso talvez um pouco ambíguo. Fiquei sem saber qual a sua posição em relação à despatologização. Tanto parecia que apoiava como que era contra. Ou então fui eu que não percebi. Se calhar aconteceu o mesmo que aconteceu comigo, não se percebe qual a minha posição.

Por falar nisso, em relação à psiquiatrização forçada (felizmente) não tenho uma posição ambígua: sou frontalmente contra. Quem sentir necessidade de ter consultas psiquiátricas deve ter. Mas forçarem quem não tem problemas com a sua transexualidade a anos e anos de consultas é um abuso e vai contra os direitos humanos das pessoas, seja pela transexualidade, seja por outra razão qualquer. Despsiquiatrização da transexualidade é, quiçá, mais importante do que a despatologização.

O Dr. Décio, na sua intervenção, veio novamente com o fantasma da comparticipação dos serviços de saúde (e seguradoras, embora que eu saiba as seguradoras em Portugal não cobrem este tema, mas sem certeza), no que concordo com ele, não concordando no entanto com a manutenção das coisas como estão, que me parece ser a posição dele. Atrás já defini qual a minha posição em relação a este assunto.

Houve também uma intervenção de uma pessoa transexual, que pelo que percebi defendia a manutenção da patologização e da psiquiatrização, mas que às tantas começou a confundir-se até que se calou. Foi esta a impressão com que fiquei da sua intervenção, não faço ideia se efectivamente defende estas posições ou se se explicou mal .

Este é um problema deste tipo de debates, fica muita coisa por questionar, as respostas a algumas perguntas ou intervenções levantam mais questões que ficam por responder e/ou esclarecer. Prefiro muito mais um debate em mailing lists, onde existe tempo para se questionar o que se quiser, tempo para se esgrimirem argumentos, não há limitações de deslocamentos, de espaços e pode-se responder ou questionar em qualquer altura.

Tive boas experiências desta maneira, em algumas mailing lists (bem, pelo menos numa, antes de se acabarem os debates na dita, que hoje em dia se encontra reduzida a anúncios de eventos e notícias (poucas). Mas isto são opiniões.

E penso ser tudo o que há a dizer sobre este debate. Os meus parabéns aos organizadores por (finalmente) trazerem este assunto para a ordem do dia.

Um lamento pela fraca assistência transexual num debate que penso ser importante para toda a comunidade (que eu tivesse contado estivémos meia-dúzia, mas não conheço toda a gente, obviamente) e que se desejava ter tido uma afluência transexual mais alargada.

Como se pode ver, a minha posição incoerente é a de não apoiar a despatologização da transexualidade por um único ponto (existem mais mas não são importantes o suficiente para não apoiar).

Quando considerar esse ponto resolvido (internacionalmente) vou ser incoerente mais uma vez a apoiar a despatologização da transexualidade.

Saudações incoerentes de uma transexual incoerente a quem leia este conjunto de incoerências.

Eduarda Santos, 17/18 de Julho de 2011
Nota: segundo informação da organização, Paulo Côrte-Real não representou o GRIT mas somente a sua pessoa, e Sérgio Vitorino também não representou as Panteras Rosa.


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Dois comunicados seguidos contra a transfobia

por transfofa terça-feira, 17 Maio 2011 13:16

No dia 15 de Março foi enviado aos meios de comunicação e associações e grupos LGBT o seguinte comunicado:

Grupo Transexual Portugal

Apresentação Grupo Transexual Portugal; Transfobia em notícia da Lusa

Por se ter considerado haver necessidade de uma voz transexual própria, independente dos lobbies clínicos e LG, considerou-se necessária a constituição de um grupo que reúna as seguintes condições
  • que lute contra a patologização da transexualidade;
  • que lute contra a associação da transexualidade com as Cirurgias de Redesignação de Sexo e outras cirurgias;
  • que lute contra a intolerável e abusiva ingerência da Ordem dos Médicos nos processos de transexualidade;
  • que lute por um tratamento digo e respeitador dos media quando relatam factos sobre transexualidade e/ou quando entrevistam pessoas transexuais:
  • que lute contra a discriminação e a transfobia instaladas, fora e dentro da comunidade LGB e mesmo na T;
  • que lute pelo esclarecimento do que é a Identidade de Género e pela IG de cada pessoa;
  • que lute pela eliminação da transexualidade da nomenclatura generalista "transgénero";
  • que lute pela defesa do respeito e dignidade de qualquer pessoa transexual, independentemente da sua ocupação laboral;
  • que se assuma como voz independente;
  • que incentive o activismo dentro da comunidade transexual portuguesa;
  • que defenda e promova o direito de qualquer pessoa transexual a uma vida digna.
Como primeira acção vimos denunciar mais um tratamento desrespeitoso da transexualidade e consequentemente das pessoas transexuais por parte da Agência Lusa e que por seu intermédio foi largamente distribuído por um grande número de meios de comunicação social.
 
Como se pode observar em qualquer notícia, o tratamento dado a (mais) uma jovem mulher transexual, mesmo sabendo que o nome dela era Luisa, é o que foi dado contínua e reiteradamente pelos media no triste caso de Gisberta Salce Júnior e noutros mais recentes: tratam-na sempre no masculino.
 
Tal tratamento, além de ser ofensivo para a dignidade de uma mulher que infelizmente nasceu com gentália masculina, não respeita a sua Identidade de Género e, por seu intermédio, ofende e prejudica gravemente todas as pessoas que se encontram na mesma situação.
 
É este tipo de tratamento que ajuda a que situações como esta se continuem a verificar continuamente ano após ano.
 
Mesmo pensando-se que a Lusa nada mais fez que traduzir a notícia dos jornais venezuelanos, tinha a obrigação de saber que Portugal não se encontra na América Latina mas sim na Europa. E que na Europa cada vez mais se dá a importância devida à Identidade de Género, tal como recomendado inúmeras vezes pela União Europeia, não esquecendo que em Portugal se pode agora alterar nome e sexo em concordância com a IG de cada um.
 
Tal tratamento é estigmatizante e aglutinador da discriminação ainda existente, ainda mais quando se aproxima o 17 de Maio, dia de luta contra a homofobia e transfobia. É revelador da necessidade premente de educação de quem se mete a escrever sobre temas sobre os quais nada sabe ou que nem se importa com quem ofende e desrespeita.
 
Lamentável sobre todos os aspectos e que levanta um grito de repúdio e revolta da parte de quem lute pelos direitos humanos.

Pelo Grupo Transexual Portugal, 
Eduarda Santos e Lara Crespo

Praticamente no dia seguinte o segundo comunicado:

Comunicado​: Mais Transfobia no Dia Internacio​nal contra a Homofobia e a Transfobia

Mais uma vez o grupo Transexual Portugal vem por este meio demonstrar o seu repúdio pelo tratamento dado pelos meios de comunicação e por um sexólogo às pessoas transexuais.

Numa notícia feita para hoje, 17 de Maio, o Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia, intitulada "Dia Mundial de Luta contra a Homofobia e Transfobia - Sara entrega pedido de mudança de nome e género no registo civil", difundida pelo jornal Público (não mencionado é a fonte da notícia, a agência Lusa, como se pode comprovar pelas notícias do DN: "CASA assinala Dia de Luta contra Homofobia e Transfobia" e pela notícia da TVI24: "Transexuais: CASA apoia Gil a ser Sara"). Refere-se a do Público por ser a mais completa.

Como de costume referem-se a uma mulher transexual como "um" transexual, reafirmando a não aceitação da Identidade de Género da pessoa, o que como já se afirmou, é desrespeitador e ofensivo para a pessoa em causa, e para a generalidade das pessoas transexuais.

Agradeciamos que a agência Lusa,o jornal Público e a TVI24 evitassem ao máximo este lamentável tratamento, evitando também que sejamos forçados a emitir diariamente comunicados condenando este tipo de transfobia. Ainda por cima no dia em que é.

Mas ainda há mais. Não contentes com isto, ainda divulgam o nome de baptismo da pessoa em causa. Não se sabe se foi com autorização da pessoa em causa, mas o discurso, em que somente o sexólogo fala em discurso directo, leva a perceber-se que a entrevista foi com ele e não com a transexual.

A ser assim a atitude deste sexólogo é contrária ao espírito da lei, que inclusivé tem um artigo a proteger a divulgação do nome de baptismo, e desrespeitadora das pessoas transexuais, que não aceitam esse nome como seu. Para alguém que diz ter 20 anos de experiência destes casos, já devia ter aprendido esta regra elementar há pelo menos uns 19 anos. Também é condenável ver-se que um sexólogo tem um estereotipo do que é uma mulher, sabendo-se da variedade humana existente. Questiona-se como será com uma mulher transexual que não se encaixe dentro do que considera como "mulher perfeita".

É lamentável que neste dia 17 de Maio, haja necessidade de se emitir um comunicado para outra coisa que não fosse a celebração deste dia. Mais lamentável é que neste dia estes tratamentos indignos e desrespeitosos continuem a ser a norma e não a excepção.

Pelo grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo

A todas as associações e grupos que concordem, pede-se que escrevam um comunicado e o enviem para os media. Este abusivo tratamento tem de acabar algum dia. Hoje, 17 de Maio, juntemo-nos e iniciemos o seu desaparecimento.

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Cirurgias paradas no SNS

por transfofa quinta-feira, 03 Março 2011 19:51

A notícia caiu como uma bomba. Na mesma altura em que Cavaco Silva tinha de engolir mais um sapo devido à sua postura anti-transexual, ao ser forçado a promulgar a lei de alteração de nome e sexo, o único cirurgião a fazer as cirurgias de redesignação sexual em Portugal abandonava o SNS.

As cirurgias cessavam.

Ao ser-lhe proposta uma remuneração de seis euros por hora, menos do que se paga a mulheres-a-dias em muitos sítios, não teve outra hipótese senão abandonar. Tal degradante proposta só pode ter tido, a meu ver, um propósito: forçar a saída do Dr.

Não há outra explicação para uma proposta destas a um cirurgião que não só era o único a fazer este tipo de cirurgias, o que devia ter sido obrigatoriamente tomado em conta, tanto pela administração do HSM como pelo Ministério da Saúde, como também é o cirurgião responsável por uma técnica inovadora, baseada numa outra de um outro médico,  sem paralelo a nível mundial e que garante uma qualidade muito superior às outras técnicas em uso.

Só estas duas razões deviam servir para a nossa Ministra da Saúde ter estes factores em atenção e dar uma especial atenção a este caso.

Entretanto, já a Ordem dos Médicos, por intermédio de Celso Cruzeiro, membro da direcção do Colégio da Especialidade de Cirurgia Plástica, acusou a responsabilidade por esta situação conjuntamente com o Ministério da Saúde.

Isto deve-se a um autismo existente na dita Ordem que, por não ouvir as activistas transexuais existentes em assuntos que lhes dizem respeito, foi “apanhado de surpresa”. É que eu já há uns anos que vinha avisando que isto iria acontecer. Portanto não pode alegar desconhecimento. Pode, isso sim, alegar autismo institucional.

Mais grave é aviltrar a hipótese de se mandar vir um cirurgião do estrangeiro. É que a qualidade das cirurgias feitas pelo Dr. Décio não tem paralelo neste momento. Portanto uma vinda de um cirurgião estrangeiro, além de ficar mais onerosa seria uma perca de qualidade nestas cirurgias.

Convenhamos, uma pessoa transexual vai ficar o resto da vida com o resultado desta cirurgia. Isse vai-se reflectir obrigatoriamente na qualidade de vida da pessoa. Portanto menos qualidade na cirurgia é igual a menos qualidade de vida. A lógica é simples e nada complicada de entender.

E mais grave ainda é isto acontecer quando, depois de anos à procura, o Dr Décio tinha finalmente encontrado alguém a quem passar o seu saber e experiência, para que não se perca uma técnica inovadora e que representa uma melhoria substancial relativamente às outras técnicas.

Seria muito mais lógico aguentar-se o Dr por mais dois anos para poder formar o interno em condições e passar a sua técnica para que continue a haver profissionais em Portugal capazes de realizarem este tipo de cirurgias com a qualidade necessária.

Porque não se deve passar o resto do tempo a angariar médicos estrangeiros para virem para Portugal. Qualidade temos cá, não precisamos neste campo de lições de fora. Muito pelo contrário. E a longo prazo vai-se poupar dinheiro. O que pagariam a esses médicos estrangeiros paguem ao Dr para ele poder ensinar convenientemente o seu recente pupilo.

A hipótese de vir um estrangeiro devia ser equacionada sim, se tivesse acontecido algum problema ao Dr Décio que o impedisse de passar o seu saber e experiência. Nunca neste caso em que O Dr está perfeitamente capaz de continuar.

A Ordem dos Médicos devia era entrar já em contacto com o Ministério da Saúde para resolver o problema relativo ao Dr Décio, em vez de equacionar já a vinda de um cirurgião estrangeiro. E acabar com a prática lesiva para as pessoas transexuais e para o estado português de emisão de uma autorização para estas cirurgias. Não faz sentido nenhum, atrasa o processo, aumenta a despesa e não traz benefícios nenhuns.

Mais, antes de se equacionar essa vinda, e não havendo vontade política de resolver o problema, deve-se contar com a possibilidade avançada pelo Dr Décio de realizar estas cirurgias no Hospital de Jesus. Resolve o problema das cirurgias, mantém a qualidade e permite a passagem de testemunho do Dr para o interno. Que deve ser a prioridade máxima, a passagem da experiência e da técnica para gerações futuras, de modo a que este tipo de situações não se repitam.

Convenhamos, não estou a defender o Dr Décio só por ser o Dr Décio. Toda a gente sabe que discordo em muitas coisas que o Dr diz, como exemplifiquei num comentario a declarações feitas pelo cirurgião. Mas sempre reconheci que o Dr nas cirurgias sabe o que faz

É que não são só 20 as pessoas à espera de cirurgias, nem o número de transexuais em Portugal se limita a duzentos. Muitas pessoas transexuais, devido à morosidade destes processos que deviam durar dois anos mas que em demasiados casos demoram cinco e mais anos, e devido ao tratamento quantas vezes inadequado e contraproducente feito pelos profissionais no SNS, provocando uma emigração forçada de transexuais para o estrangeiro.

Ora estes casos não são contabilizados nas estatísticas. Também os casos das pessoas transexuais que não desejam a CRS não o são. E os casos das pessoas transexuais que ainda se encontram nas várias fases do processo não o são. Portanto estes números pecam por defeito, pois muitas pessoas transexuais não são contabilizadas nas estatísticas.

E em relação às cirurgias complementares? Por exemplo, a colocação de próteses mamárias nas transexuais femininas? Estas cirurgias podem perfeitamente ser realizadas por um outro qualquer cirurgião, não requerem a experiência nem as habilidades do Dr. Décio, logo não existe nenhum motivo para pararem. Enquanto se aguarda pela CRS nada justifica que não se façam. E toda a gente devia saber o quão importante é para uma mulher transexual ter o seu peito. Ou o contrário no caso dos transexuais masculinos. Ou a eliminação dos testículos, que como cirurgia não representa mais que uns dez minutos de operação e que permite às mulheres transexuais pararem com parte da medicação (anti-androgéneos) que lentamente vão minando  a saúde das pessoas podendo provocar (embora não sendo causa directa) tromboflebites? Isto também não necessita de um especialista.

Pelo menos que se vá fazendo alguma coisa.


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Luna e Gisberta, 1 minuto de silêncio

por transfofa domingo, 27 Fevereiro 2011 19:20

Faz agora em Fevereiro cinco anos desde que o corpo de Gisberta foi descoberto e três anos que o de Luna o foi.

Gisberta foi torturada durante três dias antes de ser abandonada para morrer num poço de um prédio em obras cheio de água.

Luna foi abatida e o seu corpo largado num contentor metálico de obras como se de lixo se tratasse.

Os assassinos de Gisberta poucos dias depois praticamente auto-acusaram-se. O(s) de Luna nunca foi(ram) descoberto(s).

Ambos os crimes receberam um silêncio bem demonstrativo do incómodo causado por partidos e deputados que primam pelos direitos das minorias, e aqui sim, o caso Gisberta por incluir tortura continuada e por incluir “crianças inocentes como agressoras que afinal eram vítimas” foi bem demonstrativo deste ensurdecedor e  incómodo silêncio.

As semelhanças acabam aqui.

No caso de Gisberta, houve um julgamento em que se ouviram frases tão descredibilizantes para a justiça portuguesa como “foi uma brincadeira que correu mal” ou “ela morreu afogada portanto não foram eles que a mataram”.

No caso de Gisberta foi um grupo de rapazes de uma instituição católica que foram os perpretores. Durante três dias espancaram-na, violaram-na com paus e sabe-se lá que mais lhe terão feito que não veio a lume. No último dia, quando já a julgavam morta, tentaram queimar o seu corpo. Não o conseguindo, resolveram atirá-la para o poço onde faleceu.

Gisberta era sem abrigo, toxicodependente, seropositiva mas não morreu por estas causas. Morreu por ser transexual, na palavra de um dos “miúdos” que afirmou que “odiava travestis”.

Luna era trabalhadora sexual. O seu caso caiu no esquecimento, tanto das autoridades como das próprias associações e grupos LGBTTi.

Ambos os casos foram ignorados pelas associações de apoio às vítimas, que nunca se manifestaram, sendo que o de Luna tem sido ignorado também pelos media. Na mesma altura em que foi assassinada, foi-o também um jovem em Oeiras num parque de estacionamento. Há pouco tempo uma televisão nacional fazia uma reportagem sobre este caso. Da Luna nem uma palavra. Afinal não passava de uma trans, “um travesti”, como os media tão alegremente gostam de chamar. E quem é que se preocupa com estes “invertidos”?

Mas o que mais custa é ver-se que as próprias pessoas transexuais discriminam entre estes dois casos. Repare-se, vão ser feitos dois encontros e uma acção, sendo a acção e um encontro no Porto, e  outro em Lisboa. Em todos, a divulgação só menciona a Gisberta, como se a Luna não merecesse sequer uma menção, como se Luna não fosse também trans, como se Luna não fosse também uma vítima de um crime violento.

Isto vindo de associações que se dizem de transexuais é grave, é muito grave. Já o é vindo das associações LGBTTI. Já o é vindo dos media. Já o é vindo da polícia, que nunca pareceu muito interessada em desvendar este caso. mas de associações transexuais não se admite, não se pode admitir que façam distinção entre dois casos de duas trans assassinadas. O GRIT e a API devem fazer um mea culpa e assumirem o esquecimento de Luna.

Não será alheia a tudo isto a diferente mediatização entre um e outro caso. Gisberta, em termos mediáticos foi uma celebridade. Pelos piores motivos mas uma celebridade. Luna, por seu lado, foi só a m**** de uma traveca que a quem “limparam o sebo”. Nunca teve o impacto mediático que Gisberta teve. Os media, sempre pródigos na sua recolha de informações, avançaram logo com suspeitas de um crime relacionado com droga. A lógica é simples: traveca=prostituição=droga.

E assim estamos no ponto que eu queria evitar, mas sendo independente não o pude. Estas manifestações de “respeito” pela Gisberta nada mais são que aproveitamentos mediáticos e políticos da sua mediatização. Não tivesse tido Gisberta a mediatização que teve e o seu destino seria o mesmo que o de Luna: o desrespeito e esquecimento.

As pessoas que tanto bradam e tanto bradaram por Gisberta só o fizeram na medida proporcional ao reconhecimento que pode advir daí. Não fosse esse reconhecimento e Gisberta seria nada mais que uma m**** de uma traveca a quem “limparam o sebo”. Mas respeito pela pessoa que foi não o demonstram, caso contrário não falavam somente na Gisberta, incluiriam a Luna.

O facto de unicamente falarem na Gisberta é bem demonstrativo que estas acções nada mais são que um aproveitamento descarado de uma situação de uma pessoa por terceiros para quem os nomes de Gisberta e Luna nada mais significam que tertúlias, debates e comunicados de imprensa. Mas respeito? Não, para haver respeito por Gisberta teria de haver também por Luna. Homenagem? Quem era Gisberta para merecer mais ou menos  que Luna? Eram somente duas mulheres transexuais emigrantes brasileiras que foram assassinadas em Portugal.

Como é que ambas as associações/grupos se podem denominar como transexuais quando depois têm atitudes destas? E que dizer das associações/grupos que, ou primam pelo silêncio ou emitem comunicados só para Gisberta?

Dos eventos do Porto soube-se que a acção relembrou unicamente Gisberta. Não fica muito fora de contexto visto o crime ter sido cometido lá. Do debate não se sabe nada, mas posso presumir sem grande risco de estar errada que só foi mencionada Gisberta. Em Lisboa, salvo por uma pequena referência de Fernanda Câncio ao caso de Luna, só deu Gisberta. Mesmo o minuto de silêncio pedido no início foi só para Gisberta.

O argumento de que Gisberta foi um crime comprovadamente de ódio (o mais velho dos criminosos afirmou taxativamente que odiava travestis) e o de Luna não o foi é muito fraco e muito pouco defensável. Porque do crime de Luna pouco se sabe, não se sabe se não foi crime de ódio nem se foi. Portanto pode ter sido.

O que se sabe é que Luna era uma mulher trans, que foi assassinada, que o seu caso foi desprezado pelos media, pela polícia judiciária e pelos vistos está a sê-lo tanto pelas associações e grupos LGBT e pela própria comunidade Transexual.

Um minuto de silêncio em memória destas duas vítimas de seguida peço a quem ler estas palavras.

(...)

Duas vitimas de violência mortal. Dois anos de diferença entre as mortes. Dois tratamentos distintos. Por Luna e por Gisberta, que NENHUMA delas caia no esquecimento.


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Os media, uma e outra vez

por transfofa segunda-feira, 21 Fevereiro 2011 23:48

Novamente os media vêm ao barulho. E, para não variar muito, novamente com tratamentos inadequados e transfóbicos das pessoas transexuais.

Refiro-me, por exemplo, a uma notícia que saiu no Correio da Manhã sobre uma nova companhia aérea tailandesa que decidiu contratar mulheres transexuais como hospedeiras de bordo, a PC AIR, com o título de “Assistentes de bordo transexuais”.

Esta companhia é a primeira do mundo a contratar pessoas assumidamente transexuais, uma atitude louvável a todos os níveis. Mas para o Correio da Manhã, em vez de louvável a notícia é classificada como insólita. Ou seja, para pessoas transexuais não importa que tenham capacidades ou perícias para um determinado emprego, são transexuais logo “freaks” logo é insólito que se dê trabalho a alguém transexual.

Não contentes com isto, e apesar de todas as notícias que apareceram sobre isto internacionalmente afirmarem sempre que se trata de transexuais, logo no lead da notícia vem a afirmação de que se trata de “travestis e transexuais”.

A partir daqui, o tratamento dado a estas mulheres é sempre no masculino (“foram escolhidos”, “os candidatos”), terminando com uma frase que revela bem o preconceito e a transfobia de quem redigiu a notícia: “(...) tendo a empresa facultado aulas de maquilhagem para que os ‘hospedeiros’ sejam iguais a mulheres... ou quase.”

A atitude inerente a este tipo de tratamento de notícias, em vez de primar pela diversidade e integração de um determinado tipo de minoria, segue antes a linha contrária, promovendo deste modo a continuação da exclusão de minorias tanto do mercado de trabalho como da sociedade, ao classificar estas atitudes como insólitas, logo promovendo a continuação da exclusão.

Curiosamente, numa notícia sobre a candidatura de Carla Antonelli como deputada para Madrid, a notícia teve um tratamento completamente diferente no mesmo jornal, tratando-a sempre no feminino e, pasme-se, nunca a apelidando de “travesti”. Curioso como é dado um tratamento tão diferente a duas notícias sobre pessoas transexuais no mesmo jornal.

Infelizmente não é a única.

Numa atitude infelizmente muito na moda em Portugal e no Brasil, regra geral quando  se trata de pessoas transexuais e apesar do tratamento do resto da notícia poder ser bom, insiste-se sempre na menção do nome de baptismo das pessoas transexuais.

Como se sabe (ou como se devia saber) tratar-se uma pessoa com esse nome é ofensivo para muitas delas (também há quem não se preocupe com isto). É um desrespeito pela identidade da pessoa em causa o estar-se a mencionar um nome que está errado e com o qual a própria pessoa não se identifica. Demasiado comum hoje em dia.

Outro exemplo de tratamento tendencioso de notícias, mas desta vez com raízes marcadamente políticas, foi dado pela TVI quando da notícia da reaprovação da lei de alteração de nome e sexo das pessoas transexuais. Em vez de noticiarem que o parlamento aprovou sem alterações a proposta de lei, realçaram este triste facto: “Apesar das recomendações do veto presidencial …”.

Ou seja, independentemente da inexactidão e ignorância demonstradas nas razões do veto presidencial, dão a entender que essas razões seriam válidas e que foi a Assembleia da República que, provocantemente, não ligou nenhuma.

Sobre as razões do veto presidencial dei-me ao trabalho de desmontá-las, ponto por ponto, num outro post (Veto presidencial: razões e comentário) demonstrando inequivocamente a não exactidão dessas razões.

Portanto o que fica? Fica a (des)informação tendenciosa demonstrada dirigida a iludir o público em geral sobre estas questões, no seguimento da linha PSD/CDS-PP que este canal de televisão bem tem demonstrado seguir. Como exemplos, quem é chamado para comentar as notícias nacionais? Elementos declaradamente PSD/CDS-PP ou arrependidos do PS.

Numa informação isenta deviam estar as correntes de pensamento que existem, facultando os factos e deixando as análises para as pessoas, ou pelo menos que entrevistassem analistas dos vários quadrantes políticos e não unicamente de um sentido (leia-se direita).

A TVI, assim, deixa de ser um meio de informação para se tornar um veículo de propaganda de ideologias direitistas. A isenção foi-se.

E aqui reitero o apelo que fiz quando da presença de uma transexual feminina no programa “A tarde é sua”, agora estendendo o apelo a  um boicote total de toda a gente LGBTTI à TVI no seu todo e não unicamente ao programa.

Faço este apelo em nome das pesoas transexuais visto as associações existentes insistirem em ignorar estas situações e não se manifestarem, repudiando cabalmente estes tipos de tratamento de informação. E peço às associações LGBTTI existentes que se juntem neste boicote, pois num futuro mais ou menos próximo serão esses temas a sofrer este tipo de (des)informação.


Eduarda Santos, 21 de Fevereiro de 2011

http://transfofa.blogspot.com/2011/02/novamente-os-media-vem-ao-barulho.html


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transexuais ou travestuais?

por transfofa domingo, 20 Fevereiro 2011 18:03

O Dr. Harry Benjamin, na sua infinita sapiência, graduou as pessoas transexuais mediante critérios que formulou enquanto estudava os seus casos.

No entanto Harry, quando descreveu as graduações, classificou-as sempre como transexualidade, primária, secundária etc, mas sempre como transexualidade.

Convenhamos, podia perfeitamente ter dividido em transexuais, travestis, transvestis, transuais, travestuais, enfim, uma nomenclatura que separasse quem era transexual de quem não era. mas, independentemente da pessoa desejar, por exemplo, submeter-se à CRS ou não, chamou sempre de transexuais. Melhor dizendo, transexualidade primária, secundária, etc.

Posto isto, e depois de citar Harry Benjamin que é o ai-jesus da maioria das pessoas transexuais, entremos então no que me levou a pensar um bocado neste assunto.

Volta e meia, aparecem na net uns comentários de pessoas que se dizem transexuais operadas a afirmarem que a cirurgia é condição necessária para se ser transexual. As outras são “travestis” ou qualquer coisa assim.

Como eu costumo dizer, cada um come do que gosta (salvo os sapos que eventualmente temos de engolir durante a nossa estadia neste maravilhoso paraíso que é o planeta Terra). No entanto isto faz-me pensar em determinadas coisas.

Por exemplo, uma transexual feminina (nos masculinos é vice-versa), desde que toma consciência da sua identidade de género e, consequentemente, da sua transexualidade, não tem a mais pequena dúvida de que é mulher. Transexual, sim, mas mulher. E isto, claro está, mesmo antes de iniciar o seu processo de transição. Portanto cirurgias nem se fala.

Ora a existência de pessoas que só se consideram mulheres depois de completadas as cirurgias, faz-me duvidar muito da sua transexualidade. E porquê? Porque, pelo que dizem, nunca se consideraram mulheres, salvo depois da cirurgia.

Não entrando em discussões sobre género, vamos assumir o binarismo de género: masculino e feminino. Ora se estas pessoas não se consideravam como pertencentes ao género feminino, só poderiam considerar-se como do género masculino. Assim, em vez de serem “mulheres que nasceram com a genitália errada” devem ser “homens que querem ser mulheres”. E como não são mulheres, não se sentem mulheres, necessitam de fazer uma cirurgia de redesignação de sexo para obterem a sensação de que efectivamente são do género feminino.

E muitas vezes nem isto funciona, continuam a não se sentirem mulheres. E neste caso, a única maneira que descobrem de combater este sentimento de inadequação ao género a que querem pertencer, é precisamente denominarem-se “mulheres” por terem feito a CRS, diminuindo e menosprezando outras pessoas transexuais que, por nunca terem tido a mínima dúvida (salvo as iniciais que toda a gente tem) de quem são e a que género pertencem, não terem a necessidade premente e imperiosa de se submeterem a uma CRS.

Portanto estamos perante casos de pessoas que, não sendo transexuais (visto não se identificarem com o género feminino), mediante uma cirurgia, adquirem esse estatuto. Estes são os verdadeiros casos de homens que querem ser mulheres.

E os nossos psiquiatras e psicólogos, mediante uma vontade de uma pessoa se submeter à CRS, estão a ser total e completamente enganados. Não é que me admire muito.

Obviamente que não estou a afirmar que quem quer submeter-se à CRS entra nestes casos. Nada disso. Graças por uma maioria de transexuais que se submetem à CRS fazem-no precisamente por serem transexuais. Mas que existem casos assim, existem.

E infelizmente existem casos em que uma pessoa tem de se submeter à CRS para salvar a pele. Pense-se no Irão, por exemplo.

Aliás, como disse atrás, estes casos são relativamente fáceis de identificar. Lê-se num comentário, por exemplo, como este em que, no mesmo comentário diz: “Eu sou uma mulher transgender e sem duvida fui mulher desde nascença.” e mais à frente:  “Sem duvdida aquelas que se dizem mulheres transgender mas mantem orgãos sexuais masculinos não passam de transvestis que criam muitos problemas e confusão para a comunidade trasngender verdadeira.

Ou este outro: “Travesti e homossexualidade nada têm a ver com transexualidade! São muito diferentes a partir do ponto q o genêro deles não muda! No caso são e sempre foram homens. Nós transexuais negamos o nosso genêro sendo que nunca fizemos parte dele. No meu caso dizem que nasci homem, mas nunca o fui! Depois de anos intensos a negar a minha realidade tive que aceitar ou então não conseguiria mais viver! Sou transexual ou melhor uma mulher hoje muito feliz e activa na sociedade! Ninguem sabe do meu passado e me tratam sempre como devia ter sido desde o meu nascimento! Travestis por muito que queiram ser mulheres não o são porque nunca fazem cirurgia genital, ao passo dos transexuais o principal e o maior problema desde pequenos são com os genitais, dando então um forte e permanente desejo de mudança!

Estes dois exemplos, focados unicamente no aspecto cirúrgico em vez da identidade de género são bem ilustrativos do tipo de gentinha de que eu falo.

A grande diferença entre uma pessoa transexual, operada ou não, e estes pseudo-transexuais, é que a pessoa transexual não tem necessidade de se afirmar excluindo e rebaixando outras pessoas, os pseudos têm, porque mesmo operados não se sentem completamente bem com a sua identidade adquirida. E a maneira mais fácil de subir a nossa auto-estima é precisamente excluindo e rebaixando outras pessoas.

Existem também casos de pessoas transexuais que, por causa de uma auto-estima baixa, se tornam vítimas da classe médica, sofrendo uma verdadeira lavagem cerebral, em que lhes é incutida à força a ideia de que “transexuais são as operadas”.

E o mais curioso e ridículo disto tudo é que são precisamente as pessoas transexuais (ou pseudo transexuais), aquelas cuja genitália não define a que género pertencem, que nascem com uma genitália oposta à sua identidade de género, que depois de corrigirem a genitália, mudam o discurso e aparecem a proclamar que mulheres têm de ter genitália a condizer. A ser assim, não existiam transexuais nem processos de transição, a genitália é que ditava o género a que cada pessoa pertenceria e as mulheres transexuais levavam era com tratamentos de masculinização e acabava-se a história. E estas pobres alminhas nem conseguem entender isto.

Então e a identidade de género? Não conta?

Este tipo de discurso exclusivo é lamentável, ainda por cima vindo de pessoas que se intitulam transexuais, numa época em que se luta pela diversidade.


Eduarda Santos, 27 de Janeiro de 2011


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