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22/2/2008 13:52

 

A diferença entre um dogma e a vida de uma mulher


João Paulo
activista por uma vida com dignidade
jpaulo@portugalgay.pt


Há uns quinze dias, no dia 11, passou o aniversário do referendo ao aborto. Como se esperava retomou-se um pouco o debate acalorado de há um ano, com opiniões, números, críticas. Mas em geral passou despercebida a grande diferença actual entre os dois campos.

Após apenas 12 meses as organizações pelo "não" desapareceram quase por completo. Aliás nunca foram realmente significativas, pois o campo era liderado pela monolítica igreja católica. Essa ausência parece natural. Perderam, foram humilhados, debandaram.

Mas não estão desaparecidas. Vamos vê-las ressuscitadas em futuras lutas, da eutanásia e procriação assistida ao casamento civil para todos. Mas aborto é tema passado.

Do lado do "sim", pelo contrário, um ano após a vitória de 2007 e dez após a derrota de 1998, a actividade é mais intensa que nunca, com novos dinamismos e instituições. Os jornais não ligam muito e o Estado, que aplicar timidamente a lei do aborto, pouco ajuda estas organizações de apoio e divulgação. Mas os movimentos pela dignidade mostram tal exuberância e dinamismo que até parece não terem ganho.

Esta diferença entre os grupos tem uma razão profunda, que vem da própria disparidade original das duas linhas sociais. A aparente simetria, motivada pela dicotomia da resposta a sufragar, sempre escondeu uma enorme incongruência de lógica e finalidade. A distinção agora visível podia ser intuída até antes do referendo.

As forças contra a despenalização do aborto tinham uma atitude eminentemente legal e regulamentar. O propósito era garantir o que consideravam um direito dogmático e lutar pela manutenção da lei, da tradição. Uma vez perdida a alteração legislativa, não havia mais assunto e partiam para outras causas.

Pelo contrário, as forças pela dignidade humana tiveram sempre como propósito declarado as pessoas reais e concretas. O combate político foi importante mas, para lá das lutas sobre diplomas e estatutos, dedicaram-se desde o princípio a ajudar mulheres necessitadas, instituições de apoio a grávidas, mães e crianças e isto sem os apoios da santa madre igreja.

A defesa da humanidade não se faz, antes de mais, no papel mas na vida do dia-a-dia.

Isto não é um insulto ao lado do "não", mas constatação factual. Os movimentos pelo sim limitam-se a seguir a orientação da sua linha ideológica contemporânea, com elaborada e cientificamente sólida justificação teórica e uma visão global da sociedade.

A abordagem de fundo da direita em geral, sempre foi melhorar a vida das pessoas através da revolução económica, mas nunca mexendo no status quo social. O propósito meritório é o mesmo dos movimentos virtuosos de todos os tempos, mas com meios radicalmente novos. Usando análise científica, acredita-se na construção da economia ideal da sociedade, que resolverá todos os problemas.

As versões mais extremas e ingénuas da escola liberal deram-nos guerras no Iraque, ou duplos sistemas como a China. Num outro contexto a ICAR continua desesperadamente a defender ideias caducas de família mesmo quando está contra a maioria da sociedade.

No original liberal bastava a economia tomar o poder para vir o paraíso terreal. Para a ICAR bastava dizer “casem-se para sempre” e prontos, todos os problemas familiares estariam resolvidos. Hoje estes sonhos estão esquecidos no limbo dos mitos românticos da História e são os próprios “liberais” a defender o proteccionismo e leis anti-monopolistas e a ICAR a pedir desculpas por posições do passado.

Mas a lógica básica do raciocínio mantém-se viva nas novas encarnações da ideologia. Os movimentos supostamente defensores da vida, da família, como os fundamentalistas religiosos em geral, têm a sua fé posta em leis, contratos, regras, regulamentos e tradições. Sempre nos mecanismos, nunca nas pessoas.

As forças de direita sempre acharam que se deve dar esmola porque isso apenas mantém os pobres vivos, mas também os mantém permanentemente pobres. Esta é a diferença entre a preocupação humanista com a sociedade em geral e a caridadezinha cristã.

O mecanismo da rígida hierárquica católica sempre foi organizativo, não pessoal. Confia-se em leis e tradições de séculos, não em amor, honra, heroísmo, génio. As pessoas são meras peças no grande maquinismo comunitário.

A ICAR ama o poder, o humanista ama o próximo.

Para as forças do "não" o suposto sofrimento do feto era argumento para manter a lei, o que eliminaria o dito sofrimento. Para as forças do "sim" é algo que tem nome, morada e pede ajuda.

Aliás, a diferença na formulação corrente dos propósitos indica isso mesmo. O "não" é supostamente a favor da vida, um conceito biológico, selvagem, enquanto o "sim" é pela humanização, um assunto filosófico, moral. É a mesma diferença que existe entre um dogma e a vida de uma mulher.
# publicado por portugalgay | |
19/2/2008 01:29

 

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João Paulo
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